18 julho 2008

Santa Salomé

O elevador está lotado.
Salomé resolve não entrar.
É preciso cautela na hora de atravessar o rio,
é preciso admitir que o monstro que habitava o armário era você.
Porque Salomé?
Por quê?

- Cante Salomé, cante.
É o último entardecer
antes da primavera chegar.

Hey, santa de araque!
Incapaz de criar juízo, de ter um pouco de razão.
Suja, feia, malvada, falando de moral na mão.
Porque sem fé não pode ser nada,
nada além do que realmente é.

- Sonhe Salomé, sonhe.
O amanhecer vem
de mãos dadas com um troço qualquer.

A cigana enxergou teu futuro numa bola de sorvete.
Seus fantasmas manipuladores, seus corredores vazios.
O tapete voou, e você?
Nem viu.

- Siga Salomé, siga.
Lembre-se do conselho: a vida é porque é.
O coração um dia adormece; a luz volta.
Você deixa de acreditar que tem o controle da situação
e então está livre.

Querubins, nos altos, gargalhavam
- bêbados de dai-me e casimira –
“Veja os humanos,
tão abestados,
correndo concentrados,
como formigas.
Apertados em seus carros,
esmagados em suas vidas”

- Durma Salomé, durma.
Transforme sua dor em reza.
Espere o inverno chegar.

Oh santa!
Peço perdão por não ser como tu és.
Não sou de gesso, ou barro,
pedra ou madeira.
Tenho carne, sangue e ainda tenho saída.
Perdôo sua inanição
e você perdoa minha vida.

Todo pecador é um santo e o elevador voltou vazio.
Vá Salomé, vá!
De santa você só tem o pau oco.