31 julho 2008

Santa Salomé de Araque

- Entrem. Só não reparem na bagunça.
Meu cinzeiro está transbordando, minha louça está suja e minha televisão coberta de pó; mas bagunçada mesmo sou eu.

- Entrem. Só não reparem meu sobrepeso, meu mau humor, meus exageros, nem no fato de eu estar com 25 anos e ser viciada em maconha, não ter um emprego fixo, meus pais pagarem meu aluguel e eu simplesmente não saber o que pretendo fazer quando tiver quarenta e nove anos.
- Entrem. Só não reparem que eu não gosto de crianças nem de cachorros nem de carnaval, somente me interesso por profissões que não pagam bem nem assinam carteira, não separo o lixo seco do lixo orgânico, não faço sexo há seis meses e minha vida social é nenhuma.
Também não reparem na minha total inaptidão para a cozinha, minha leitura atrasada, meus peitos pequenos, meus preconceitos, minha dificuldade em calcular, minha intolerância, meu conhecimento inútil, meu computador velho.
Não reparem, mas no inverno eu durmo com o lençol térmico ligado no máximo, não gosto de frutas, de verduras, menos ainda de legumes; sou sedentária, egoísta, melodramática, chocólatra e irresponsável.

- Entrem, não reparem. Fiquem a vontade.
Prazer, eu sou a Salomé.



Este é o capítulo primeiro no meu novo livro, Santa Salomé de Araque.
Se tudo correr como o previsto (e vocês sabem: nada nunca corre conforme o previsto), devo terminá-lo em um mês.
E se tudo continuar correndo conforme o previsto (oremos.), O Santa Salomé... será publicado pela Não Editora (que é uma editora porreta) e eu me tornarei uma Não Autora.
Maneiro, né?
Então: estou aceitando rezas brabas, vibrações positivas, torcidas sinceras e mandingas.
Bora lá pesoal, juro que mando beijo prá todo mundo quando eu aparecer no Jô (este gordo capitalista).

:)