07 julho 2008

Pai de artista, parceiro é.

A maioria das pessoas acredita que para se dar bem no complexo e concorrido mundo das artes (seja na música, literatura, cinema ou tantas outras) é preciso, antes de tudo, ter TALENTO – e não estou falando do chocolate.
Pensam que, tendo a tal da aptidão, do ‘jeito pra coisa’, o resto acabará por vir, cedo ou tarde.
Óquei.
Pode ser até (uma parte da) verdade.
Mas tem mais.

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Eu já penso que o talento faz parte da receita.
É um, entre muitos outros ingredientes.

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Anota aí o que eu acho:

- Precisa-se de SORTE.
Ela é fundamental.
Para conhecer a pessoa certa, na hora certa, no lugar certo, fazendo a coisa certa.

- É necessário também domínio sobre a sua arte e, acreditem: isso nada tem a ver com talento. Tem a ver com técnica, treino e prática.
Pensem comigo: um escritor profissional, por exemplo, sempre irá escrever mais e melhor que um escritor amador. Afinal o primeiro é pago para escrever, e escreve o tempo inteiro, enquanto o outro, provavelmente, só irá escrever quando tiver tempo e disposição, ou quando a inspiração (sorrateira) resolver aparecer – e ela vem só de vez em quando, fica pouco e não toma nem um café.

- Logo, também se torna imprescindível ter TEMPO para produzir a sua arte.
Todo trabalho que é realizado somente nas horas vagas ou quando ‘sobra um tempinho’ não vai sair tão bom quanto outro, exercido em tempo integral e encarado com seriedade – não passatempo.
Um chef de cozinha sempre vai cozinhar melhor do que a namorada que resolveu fazer um agrado para o namorado no sábado de noite;
Um fotógrafo profissional sempre vai tirar melhores fotos que um turista;
Um nadador sempre vai nadar melhor que um veranista;
Um pianista sempre vai tocar piano melhor que você, que conhece o dó ré mi fá sol e olha lá.

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O último ingrediente é tão ou provavelmente mais importante que todos os citados até aqui: trata-se de TER OS PAIS CERTOS.
Sim, seus progenitores.
Àqueles que muitos afirmam não terem sequer tido a chance de poder escolher.
Eles: seus pais.

Acreditem quando eu digo: ter os pais certos pode ser decisivo na hora de se dar bem (ou não) fazendo arte.

Porque essa história de ir contra tudo e contra todos para, ao final, triunfar soberanamente, lançando um olhar de “viu só?” para todos que duvidaram do seu talento, só funciona nos filmes.
Na vida real, é BEM diferente.

Começa no berço:
É cientificamente (e obviamente) comprovado que crianças estimuladas são mais inteligentes e criativas que as outras.
Passa para a infância:
Crianças instigadas acabam por se tornar, naturalmente, mais curiosas. É necessário um pai e uma mãe dispostos a tornar esta curiosidade saudável – e não nociva.
E continua na adolescência:
Precisamos dos nossos pais para, primeiramente, nos incentivar e nos mostrar que somos mais que um monte de espinhas.
Depois para nos mandar ir em frente; para nos alicerçar; para não nos deixar esmorecer.
Quando temos dezessetes anos precisamos mais de amigos do que de carrascos; mais de apoio do que pressão.

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Você pode até acreditar que eu estou exagerando; que 'os pais são importantes, é claro, mas nem é tanto assim'.
Pois eu lhes digo para prestar atenção aos que vivem ao seu redor, e a todos que você conhece.
Observe se os mais interessantes, os mais inteligentes e criativos, não possuem pais e mães tão interessantes, inteligentes e criativos quanto os próprios.
A fruta nunca cai longe do pé; para o bem e para o mal.

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Não dá para ser artista em um ambiente onde a arte é renegada.
Onde a mãe joga na cara que o filho da Fulana se formou em medicina e ta enchendo o bolso de grana, enquanto você blábláblá.
Não dá para ser artista tendo um pai que te acha um fracassado; que te olha quase com desgosto, imaginando que merda de azar ele deu para ter um filho tão mal sucedido quando você.
Não dá para ser artista com pais desmotivadores, intransigentes e limitadores, que não conhecem nem querem conhecer aquilo que o seu filho é, o que pensa, o que gosta e o que gostaria de ser.
É impossível.
Você pode ter talento, técnica, sorte e tempo - pode ter até as costas quentes - que, muito provavelmente, a coisa não irá adiante.

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Enrolei até aqui só para chegar ao ponto mais importante dessa história: OS MEUS PAIS;
que nunca me compararam com nenhum primo ou filho de amigo bem sucedido,
que sempre me incentivaram a escrever, a ler, a desenhar, a ouvir música e a fazer coisas interessantes,
que sabem que reconhecimento não é o tipo da coisa que vem da noite para o dia, e o importante mesmo é que eles conhecem e reconhecem você.

Os meus pais nunca fecharam as portas para mim, nunca duvidaram, sequer me questionaram, e jamais pretenderam que eu fosse uma extensão daquilo que eles não foram.

Eles me aceitaram sem nunca colocar nenhum muro na minha frente, nenhuma pedra no meu sapato.
Pelo contrário.
Muito pelo contrário.
A porta sempre esteve aberta e eles sempre vão ser meus maiores cúmplices.

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Escrevi isso, a bem da verdade, só para agradecê-los:
- Valeu mãe.
- Valeu pai.

Seria tão mais difícil, tão mais tortuoso e tão mais chato sem o apoio deles que, sinceramente, eu acho que já teria desistido.

E hoje poderia estar infeliz e ranzinza; o que seria péssimo.