15 julho 2008

EPIDEMIA



Um dia, eu disse:
- Vocês ainda vão sentir falta da maconha.
E cá estamos nós, pouco mais de cinco anos depois, já saudosos.

“Cocaína e maconha caíram bastante”
Christian Nedel, delegado do Departamento Estadual da Criança e do Adolescente (Deca)


Confesso que achei que demoraria mais.
Sabia que as coisas iriam piorar – pois era óbvio, o caminho natural – mas acreditava realmente que passariam ainda uns 14 anos antes de tudo vir abaixo.
Me enganei.
Nos enganamos.

“Uma advogada de 43 anos julgava ter sua família a salvo do crack.
Nem se preocupou em saber um pouco mais sobre aquela droga “estritamente marginal”, muito distante do universo da classe média alta.
Até que seu filho caçula, de 15 anos, provou o contrário.
- Antes de descobrir sobre o uso do crack por meu filho, diria que era impossível”.

O responsável por essa bandalheira toda?
Atende pelo nome de Crack.
Primo pobre da cocaína, é sua forma de uso (fumada) que garante seus efeitos mais potentes - e devastadores.
Chega ao cérebro entre 8 e 12 segundos após o consumo.
A cocaína, mesmo quando injetada, leva de 30 a 34 segundos para fazer efeito.

“Em 2006, pela primeira vez na história, a quantidade de crack encontrada com traficantes superou a de cocaína. Agora, já é três vezes maior.”

É por causa dele que estamos morrendo por causa de um relógio ou um par de tênis.

“Sinto que sou capaz de fazer qualquer coisa para conseguir R$10 e comprar crack, até matar uma pessoa.” F. Usuária de 17 anos.

É por causa dele que, à noite, precisamos recolher as cadeiras de plástico da varanda e as roupas do varal.

“55% dos garotos envolvidos em ocorrências relacionadas a drogas estavam sob efeito de crack. Em 2005, o índice não chegava a 2%.
A polícia não encontra forças para reagir
.”


É por causa dele que os hospitais e as clínicas de reabilitação estão lotadas, inclusive por crianças.

“O crack se aninhou entre os brinquedos e os personagens de desenho animado que enfeitam a ala infantil do Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre. A maioria das crianças internadas nos dez leitos do serviço, especializado em menores de 12 anos, é de viciados em pedra. Há dois anos, a droga respondia por 10% das internações infantis. O índice já passa de 60% - o equivalente a mais de 70 crianças atendidas por ano”.


É por causa dele que famílias inteiras estão adoecendo, vendo seus filhos perderem para o crack.

“Os índices de desistência (em tratamentos com usuários de crack) são acachapantes. Dos 159 pacientes que ingressaram entre janeiro e junho, 74 desistiram no período. Conseguir levar um dependente até o fim do período de nove meses não é garantia de êxito. Depois que vão para a rua, 90% recaem.”

É por causa dele que estamos perdendo, absolutamente, o controle.

Vou matar os traficantes. Era só nisso que C. conseguia pensar diante do caixão do primo, que se enforcara para fugir do crack. Estava revoltado com a droga. Eles vão ver só. Desabalou do cemitério para a boca-de-fumo, decidido a descarregar sua cólera. Vou acabar com eles. Entrou, ficou frente a frente com o traficante, olhou nos olhos dele. Agora vou dizer umas verdades. E então sentiu que a voz falhava, que a decisão fraquejava.
- Quero crack – ouviu-se pedir”


Mas acredite: as coisas não chegaram nesse ponto da noite para o dia.

“As apreenssões da pedra se multiplicam ano após ano. Passaram de menos de meio quilo em 2000 para 120 quilos no ano passado. E devem bater um novo recorde em 2008”

Em outubro de 2007, afirmou o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab:
“Não existe mais a velha cracolândia, a serviço da droga, a serviço do crime. Cada vez mais essa é uma página virada na história de São Paulo”.
A velha cracolândia realmente não existe mais, pois deu lugar a nova cracolândia, distante apenas um quarteirão e meio da antiga.
- Eles fizeram uma operação para higienizar, ou seja, expulsaram os meninos de lá e esses meninos fizeram o quê? Foram para a rua transversal ou para outra rua, argumenta Lúcia Pinheiro, coordenadora-geral da Fundação Projeto Travessia.
"Hoje já está disseminado e não há mais controle", alerta.

“Perguntei sobre o pai da criança, e ela me disse que era um traficante que vendia crack no Centro mesmo. Questionei-a se era marido, namorado ou companheiro, ao que me respondeu que mantinha relações sexuais com ele em troca de ‘pedra’, mas que quando ele descobriu que estava grávida deu dez pedras para ela sumir e nunca mais aparecer. Disse que aceitou na hora. Na outra noite, quando ela foi atrás de mais pedra, ele deu um chute na barriga dela para tentar matar a criança. Quando perguntei se ela já tinha escolhido o nome do bebê, ela me olhou nos olhos e perguntou se eu não queria sexo oral. Ela faria por vR$ 3”.
Manoel Soares – colunista ZH

Ninguém acreditou no poder do crack.
Subestimamos, eu e você, sua força.
E discretamente ele entrou em nossa cidade, em nosso bairro, em nossas casas, subiu em nossas camas e, de um minuto para o outro, integrou-se a nossa sociedade de uma maneira sórdida e letal.
Já houve quem dissesse que o crack está para o Brasil assim como a AIDS está para a África.

“A fissura do crack é avassaladora. Estamos permanentemente estudando como lidar com isso, mas a própria comunidade científica não sabe o que fazer. Há especialistas dizendo que o mínimo necessário para se livrar da droga seriam três anos de tratamento”.
Francisco Trein, coordenador do Centro Terapêutico São Francisco.


Não adianta fazer essa cara de “não-tenho-nada-a-ver-com-isso”.
Talvez você não seja usuário; talvez nenhum de seus amigos, nenhum de seus filhos, sequer algum de seus conhecidos consumam crack.
Porém, quando um dos seus tomar um tiro no meio da cara por causa de um celular, você vai entender que o crack tem tudo a ver com você.

“É um mecanismo perverso, em que o crime desesperado alimenta o crime organizado. Os trocados que cada usuário rouba de um vizinho ou do cobrador de ônibus, como último recurso para saciar seu vício, multiplicam-se em milhões de reais nos cofres do tráfico, estimulando massacres pelo controle de ponto-de-venda de droga e oferecendo capital farto para financiar quadrilhas de assaltantes de bancos e de carros-fortes.
Na base dessa usina de violência está uma pedra vendida por R$5”.

E agora?
O que fazer?
Juro: não sei, e compartilho isso com vocês numa tentativa tola de exorcizar aquilo que aperta meu coração.
Envolve boa vontade: é preciso criar mais leitos e mais clínicas de reabilitação públicas; fechar o cerco contra o tráfico de drogas, aumentar o policiamento nas ruas, além de outros problemas que chegam até as raízes do nosso país, e dificilmente serão resolvido JÁ.
E precisamos de uma solução agora.
Imediata.
Emergencial.
Pra ontem.
Não podemos esperar mais.

“Não gostam que eu diga isso, mas até agora meu índice de recuperação de pacientes de crack é zero. É preciso fazer algo para que não ocorra o uso da droga, porque, depois que acontece, conseguir algum resultado é muito, muito difícil”.
Sergio Paula Ramos, especialista em tratamento de dependentes químicos.


E ontem, quando sai para jantar,
encontrei um sujeito
sentado em um banco,
na frente do meu prédio,
fumando crack.

(*) Citações retiradas do Jornal Zero-Hora, da série A Epidemia do Crack. Os egoístas não disponibilizaram o especial no site.