26 junho 2008

Uma conversa entre Deus e o Diabo - parte II

Natanael sentia vontade de fumar.
Mas sabia que, na qualidade de arcanjo, braço direito do Todo-Poderoso, não poderia se dar a este desfrute mundano.

Ouvia os passos apreensivos de Deus na sala ao lado.
Tinha certeza que Ele havia feito novamente uma ligação para o andar de baixo.

Sibilo aproximou-se:
- E então?
- Ele telefonou outra vez para o Coisa-ruim.
- Ta brincando?
- Antes fosse.

A porta da sala celestial se abriu num estrondo, e Deus apontou por entre a abertura:
- Aquele pulha já chegou?
Mas antes que Natanael pudesse responder, Lúcifer adentrou espalhafatoso, falando alto:
- Acabo de chegar. E já vou logo avisando: desta vez não aceito desculpas!
Deus franziu a testa desagradado, e recolheu a cabeça para dentro da sala.
- Entre, entre...

Lúcifer continuava o mesmo, porém mais fedido, ainda mais gosmento e com três ou quatro rugas a mais. Olhou pela janela, passou os dedos podres por alguns objetos do Senhor, empestando-os, e finalmente sentou:
- Então? O que posso fazer por você?
- Ora, não te faça de desentendido, Satã!
Lúcifer levantou-se, dando-se por ofendido.
- Ora digo eu! Você resolve dar uma de Criador e não-sei-mais-o-que e depois vem acusar a mim? Não tenho absolutamente nada a ver com esse episódio, sou só um velho diabo.
Deus olhou-o quase com piedade, e jogou-se, exausto, em sua enorme poltrona azul.
- Este era meu medo. Preferiria mil vezes que isso tivesse um dedo seu.
- Ah, eu também. Assim, ao menos, poderia recuperar meu prestígio e minha popularidade de alguns séculos atrás.
Deus suspirou fundo, desanimado, olheiras profundas:
- Onde eu errei Lúcifer, me diga! Onde?
- E eu é que sei? Só sei que por causa dessas tuas invenções estúpidas estamos ficando para trás. Da onde você tirou aquela idéia cretina de transformar um punhado de barro num homem? Porque não foi aprender uma nova receita de bolo, fazer algumas palavras-cruzadas?– e Lúcifer, com expressões nojentas, cuspiu no chão. – Odeio eles. Todos eles.
- Nunca pensei que fosse dizer isso, mas você tem razão. –respondeu o Senhor, suspirando - Infelizmente agora é tarde. Já estou morto.
- Mas e aquela idéia do dilúvio?
Deus o interrompeu balançando a cabeça negativamente:
- Esqueça Lúcifer. Esqueça.
O diabo levantou-se e se pôs a caminhar pela sala, empertigando tudo.
- Pelo menos me ofereça um uísque.
- Só tenho chá. – respondeu, franzindo a testa.
O Todo-Poderoso observou o demônio por alguns minutos, olhos contemplativos como quem estivesse amadurecendo uma idéia. Uma boa idéia.
Através do telefone interno divinal, chamou por Natanael:
- Arcanjo: peça ao Noé para vir até minha sala.



E numa casa feita de chocolate e marzipan, a menina esquecia o que era dor e o que era tristeza, porque Sibilo e Natanael lhe tiravam canções de seus tamborins.


(para Isabella Nardoni)