26 junho 2008

Uma conversa entre Deus e o Diabo - parte I

Natanael observava seu chefe nervoso.
E nervoso também ficava.
E por isso sua asa esquerda coçava e o deixava ainda mais nervoso.
Sibilo entrou e encarou os dois. Sentiu o ambiente sólido como uma rocha:
- Como ele está? – perguntou, sua voz quase inaudível.
Natanael não respondeu. O que, dada a situação, já era uma resposta.

Passaram alguns minutos.

- Ele telefonou para aquele cara lá de baixo.
Sibilo arregalou os olhos:
- Tá brincando?
- Verdade...
- E...?
- Está chocado também. Disse que não tem nada a ver com isso.
- Então...?
- Os humanos, né Sibilo? Isso é coisa dos humanos...

Deus observava a Terra por entre as nuvens.
Parecia preocupado.
Madalena, sua secretária para assuntos extra-oficiais, adentrou a sala divinal:
- Senhor, ele chegou. Está aqui e está fedendo.
- Mande-o entrar.

Mais alguns segundos e Lúcifer adentrou o salão. Um cheiro funesto dominou o ambiente e Deus aproveitou sua divindade para impedir que aquele odor fosse decodificado pelo seu cérebro todo-poderoso.
- Só vim porque também quero explicações.
- Ora explicações – vociferou inesperadamente Ele – Você é quem vai me explicar direitinho essa história...
Mas Lúcifer, desta vez, não tivera culpa.
Estava em reunião com Mister Bush naquele horário. E nem gostava muito de criancinhas, até porque poucas eram atiradas aos seus poderes, lá no andar de baixo.
- Sabe os detalhes? – perguntou, servindo-se de chá, Lúcifer.
- Sei. E devo confessar que nem você, no auge de sua mocidade e bestialidade, há uns dois séculos atrás, conseguiu ser tão cruel.
- Eu sei. Estou cansado e velho. Essas suas criações também...
Lúcifer andava pela sala celestial como se fosse dono do lugar, e por onde passava empestava com gosmas e sujeira os brancos e limpos cômodos celestiais.
- O que tem minhas criações? – deu-se, por ofendido, Deus.
- Como o que tem?! Se não fui eu, nem você, está na cara que foram eles: os humanos. Os medonhos humanos. Por culpa deles mais pareço um cachorro velho que o impiedoso demônio que sempre fui.
Deus não respondeu, e não foi possível saber se o seu silêncio consentia ou ignorava os comentários satânicos de Lúcifer.
- Não sei onde errei – admitiu, por fim.
- Nem eu. Talvez o barro estivesse vencido...
- Talvez.



Em cima de um telhado feito de nuvens e amendoins, o menino cantava e não ouvia a conversa dos dois lados de cá.
Natanael e Sibilo decidiram levar um pedaço de bolo de chocolate para ele.


(para João Hélio)