26 junho 2008

Tico e os Italianos

Uma correntinha de ouro, uma família de estrangeiros no Brasil, um ônibus e Rodrigo Carvalho Cruz, o Tico.
Estes são os elementos e personagens de mais uma história da série Brasil: o país sem noção.

No dia 19 de novembro deste ano, uma família de italianos em férias no Brasil passeava pela linda Ipanema quando, em cima de uma bicicleta, Tico arrancou a corrente de ouro do patriarca da família. Indignado, o filho se colocou atrás do assaltante, alcançando-o, e ambos passaram a brigar; caíram no chão, rolaram até a rua. Um ônibus não conseguiu frear a tempo e atropelou o turista, o matando.
Tico fugiu.
Porque fugir é provavelmente o que ele faz, desde que aprendeu a andar.

Tico se refugiou na favela da Fazendinha, no Complexo do Alemão, subúrbio do Rio, na casa do pastor Isaías da Silva Andrade. Ontem, ele se entregou para a polícia.

Também pudera: não é sempre, aqui no Brasil, que vemos a polícia tão empenhada em capturar um assaltante como neste caso. Centenas de milhares de policiais se deslocaram até a favela, armados até os dentes, numa operação digna de deixar Fernandinho Beira-Mar invejoso.

Não estou aqui para defender o assaltante. Nem para concordar com o pastor, que afirmou que Tico só fazia o que fazia porque estava “possuído pelo demônio”. Acho, inclusive, um absurdo o que acontece com os turistas que vêm visitar o Brasil, que virou e mexeu são assaltados, assassinados, estuprados, violados, levando para fora do país uma imagem tenebrosa porém justa, de um país tão repleto de belezas naturais e crimes hediondos.
O que me irrita, me tira do sério, me arranca o sono e traz dor de estômago é a forma como as coisas são tratadas aqui.
ERA realmente necessário todo aquele alarde, toda a cobertura da mídia, todo esse fuzuê pra prender um miserável, como o tal do Tico?

Porque ele é somente mais um bode expiatório em nosso Brasil.
Tico, negro, 20 anos. Sem estudos, favelado, pequenino ladrão.
Ele não matou o francês. O ônibus matou.
Ele roubou – e isso, é claro, não está certo – mas quantas e quantas pessoas não são violadas no Brasil todos os dias? Já cansamos de ver os registros de câmeras de segurança mostrando a cara de pau dos assaltantes, que roubam a luz do dia, bem no centro da cidade e na maior das caras duras. Acontece todo dia e eu nunca vi a polícia se mobilizando daquele jeito para prender o rapaz de roubou a bolsa da senhora ou que arrancou a carteira do bolso do estudante.
“Mas era um estrangeiro, Janaína. O Brasil precisa mostrar serviço pro pessoal lá de fora não sair por aí pensando que aqui só tem bandido”.

Oquei.
Mas então porque, ao invés de todo esse circo para prender o pobre-coitado do Tico, nosso país não busca soluções no sentido de IMPEDIR que Ticos continuem roubando, ao invés de tentar remediar uma situação que não pode mais ser remediada. Afinal, o filho do italiano assaltado, Giorgio Morassi, está morto e isto é fato consumado e irrevogável.
Eu sei, eu sei. Vão me dizer que a segurança pública no Brasil é problema antigo, complicado... Que a educação seria primordial em casos assim – de prevenção -, e é muito, muuuito difícil, tendo em vista as condições do país, e blábláblá. Eu sei.
Contudo o que quero dizer é que nosso país não pode mais continuar criando algozes e colocando em suas costas a culpa de tudo que nos acontece.
Bodes expiatórios escolhidos aleatoriamente, para responderem por crimes cometidos, na verdade, pelo estado: um estado que não dá educação nenhuma para seus filhos; que joga pessoas nas margens da sociedade, que entope favelas de gente e cria um tal de poder paralelo – somente para confirmar que a polícia nada pode fazer, afinal “eles criam suas próprias leis por lá”.
E, enquanto isso, Ticos, Pedros, Marias e Ricardos são taxados de CULPADO pela sociedade e pelo estado, pela polícia e pelos cidadãos que, ridiculamente, devem estar neste exato momento sentindo-se aliviados – “graças á Deus prenderam aquele ladrão”.

Prenderam sim, mas e daí?
Outros milhares de Ticos continuam soltos por aí, roubando bijouterias e bolsas, e é questão de tempo vermos na TV outro estrangeiro – ou outro brasileiro - estirado no chão, morto por causa de miudezas.

Tem vezes que o Brasil me deixa triste.
Triste porque não vejo um mínimo de interesse em resolver a questão. Tudo é sempre varrido para debaixo do tapete, e alguém é escolhido para pagar a conta.
Acho, honestamente, que o Tico deve responder pelo crime que cometeu.
Mas só isso.
Ele não pode e não deve responder pelos crimes que são de todos nós.


Publicado n'Os Armênios