26 junho 2008

De costas

Eu olho para um lado, fixo.
Para o outro lado, fixo.
No meio,
uma pedra chamada culpa;
crime, castigo, tudo que vai volta, tudo que sobe desce, nem tudo que sorri é amor.
Ao redor, todo um mundo, desbravado e apossado teoricalmente.

Toca uma música, mas a culpa incomoda minha cabeça, pesando.
Não gosto dela, evito-a sempre,
mas tem horas que ela arma uma arapuca
(maldita! ataca justamente pelas costas),
nos derruba no chão,
nos maltrata,
atormenta como um portão que bate ao vento.
(sua voz fininha, seu sobrepeso, sua sensação de dor)

Eu de costas para eu
Fixa em um lado,
fixa em outro
Nada divisando, por fim.
- Culpa é para os fracos.
[o mestre sempre é hostil perante nossa fraqueza]
- Além de burrice, evidentemente.
Os inteligentes, eles erram todo o tempo.
Mas ao contrário de você, verme!, não perdem tempo (precioso, precioso) lastimando-se pelo que não se pode mais mudar.
Aconteceu, terminou.
Olhe adiante e caminhe,
você não está aqui para dramatizar, ator barato!

Da raiva tiro a força,
como humana que sou
de linhagem vira-lata.
Agarro meu tempo e trato de preencher meu dia,
solucionar este problema,
transformar esta culpa em lembrança.
Cômica, se não for pedir demais.

A pedra do crime enfraquece,
me faz recostar no outro eu,
me faz sentir meu calor.
O mestre tem razão, eu estou viva.

Levanto e o procuro pela primeira porta aberta que encontro:
- Pai: preciso te contar uma coisa que eu sei, que eu errei,
que você precisa saber.
Eu choro enquanto falo
Ele olha-me sério, angustiado,
mas todo seu amor resplandece nos seus olhos bons.
Ele abraça
Ele sorri
Ele me salva.

- Desculpe mestre, mas o maior homem deste mundo eu chamo de pai.