26 junho 2008

Fina flor da juventude,

desculpe minha voz já pelo fim.
Mas preciso te contar: seu tempo, minha filha, vai acabar.
Antes mesmo das traças devorarem aquela sua roupa nova;
antes mesmo do seu perfume secar.

Porque o tempo é assim, um sujeito apressado e sem cerimônias.
Vem andando frenético pela avenida,
sem nada observar com atenção
(ele não vê nossas fraquezas, ele é um cara afobado).
Vem atropelando velhinhas, passando por cima de carros.
E um dia,
você cansa dele fugir.
Então senta na varanda no final de uma rua principal
E espera ele chegar até você.
Basta servir uma bebida quente e doce, e o tempo se aquieta.
Mas prossegue.

Você não consegue fazer do tempo seu hóspede por muito tempo.
Ele não é do tipo que deita para dormir,
que sossega na frente da lareira, bebericando vinho e fumando charutos.
Não.
O tempo tem pressa.

Então, fina flor
Trate de encher essa sua carcaça de coisas boas ou,
no mínimo,
proveitosas.
Porque provavelmente será isso o que fará toda a diferença
quando o tempo já houver visitado sua cama muitas vezes.

Não criança, nem tudo é justo,
e não,
eu não sei porque.
Só sei que é assim.

De paletó irlandês,
em uma poltrona amarela
você fuma e observa as horas
– invenção estúpida –
virarem em um relógio parado.
Você está indignado.
Eles estão indignados.

Fina flor da juventude
atire fora esse espelho.
O tempo vai e o tempo vem.
Ele tem pressa.
Apresse-se.