26 junho 2008

Princesa Latifa

Princesa Latifa não tem castelo.
Não tem trono,
não tem realeza,
não tem sangue azul.
Não tem dama de companhia,
nem carruagem mágica,
nem príncipe encantado;
nem mesmo um beijo de amor
capaz de despertá-la para a vida.

Princesa Latifa tem um quarto sujo no subúrbio da cidade velha
com uma janela que dá vista para um muro alto e cinza.
Princesa Latifa enche-se de substâncias
capazes de amenizar a dor,
porém incapazes de curar.
Os homens deitam
e os homens deixam sua cama,
largando sobre o bidê de abajur enfeitado
moedas quentes
notas velhas de pouco valor.

Não;
Princesa Latifa não sofre
e não chora.
Porque a humanidade é assim, e muito a interessa;
porque conhecer os homens – ela sabe – é enxergar também um pouco da face de Deus.
Chovia rosas, vez que outra, na sua plantação de Lótus,
e ela, sem guarda-chuva,
vivia encharcada de amor.
Seus óculos podiam ver os próximos capítulos da vida:
porque os homens repetem-se
previsivelmente.
A todo instante

O Sacerdote não absolve os crimes de Latifa;
mas dela gosta, e por ela deseja o bem.
O Coronel não assume
mas a teme com a mesma intensidade com que teme a morte
(porque Latifa conhece e não respeita sua alma).

A senhora por Latifa sente curiosidade
imaginando todas as noites
o quanto gostoso pode ser o gosto da liberdade que traz solidão.

Latifa, princesa suja da grota
Coberta por desconhecidos
Emanando fluídos forasteiros
Lamentando por todos os amores perdidos deste mundo.

Não;
Princesa Latifa não sofre
e não chora.
Sua história sem castelo,
sem trono,
sem sangue azul nem carruagem mágica,
nunca entrará neste seu livro rosa de fábulas encantadas,
onde a vida se encerra com um equivocado final feliz.

Como pode uma princesa ter com tantos príncipes?
Como tantos beijos podem não despertar para a vida?
A coragem de um homem dá a medida exata de seu poder sobre a humanidade.

Ela é princesa dos meninos de rua;
dos velhos bucaneiros;
dos bêbados da praça.
Amiga íntima de tantas vagabundas.
Vadiando no sonho da senhora,
despertando a perversidade da senhorita e seu chapéu.

Princesa Latifa, plantando ópio em vasos de barro;
O Sacerdote não a absolve.
Coberta por desconhecidos,
Princesa Latifa lamenta todos os amores perdidos deste mundo.
Encharcada de amor depois da chuva
Princesa Latifa entra no bar,
atrás de comida, algumas moedas quentes e um amor eterno
para distrair desta vida curta.

Princesa Latifa olhou o olho gigante
que do meio da terra
a tudo observa.
E este olho,
- Este olho, senhoras e senhores:
É
o
olho
de
Deus.

Latifa, princesa suja da grota.
Ela conhece os velhos que roubaram a tua juventude.