26 junho 2008

Cara amiga,

Ontem à noite fui visitar a tua casa,
e você não estava.
A porta abriu-se sem que necessário fosse girar a maçaneta,
e eu entrei na tua sala cheia de penduricalhos,
tuas paredes coloridas
tua imensa vontade de continuar criança e lúcida.
E na tua cozinha, amiga, havia um rato.

Ele me olhou por sobre a pia com seus olhos ruivos e sujos,
e estranhamente sequer moveu-se ao perceber a minha presença.
Ele não estava com medo.
Ele era imenso, maligno,
obsceno.
Aquele rato, amiga,
dava vida a tudo que a nossa relação se transformou.

Porque, cara amiga,
você não é minha amiga.
Nunca esteve presente na hora em que os ventos varreram meus jardins;
nem quando morri de dúvidas,
de medo, de alegria, de ansiedade.
Nem quando estava sozinha,
nem quando a primavera se foi.

Você esteve, sim, enquanto a sua vida acontecia.
Enquanto homens entravam e saíam do teu quarto,
enquanto teu coração apertava,
enquanto os teus sonhos desciam ralo abaixo.
Você nunca perguntou se estava tudo bem.

Suas mãos não vencem armas;
você enxerga, mas é completamente cega.
você veste vestidos de seda e veludo,
e acredita que é pura.

Só te escrevo, cara amiga,
porque não te desejo mal.
Porque sei que você está parada, há anos, em uma estação de trem,
esperando uma condução que leve
quem não sabe mais para onde ir.
Parada em frente a amarelinha,
sem saber atirar a pedra no quadrado certo,
sem nunca alcançar o céu.

Amiga, teu mapa está todo errado;
mas você poderá usar o meu, quando precisar.
Não porque sou nobre
Não porque amo você
Nem mesmo por te respeitar.

Mas porque
naquela noite em que visitei a tua casa,
e mais uma vez você não estava,
eu encontrei aquele rato na tua cozinha.
E enxerguei este oceano a nos separar,
e estes cortes que eu julgava curados
apareceram abertos,
jorrando sangue e supuração.
Eu descobri, amiga,
a imensa piedade que trago por você,
doce princesa deste castelo abandonado.