26 junho 2008

Amarelinha

São nove números e o céu.
Eu tinha sete anos e um vestido vermelho meio ridículo.
Na frente de casa, um tijolo laranja desenhou no chão
os nove números da minha amarelinha;
e eu me preparei para alcançar o céu.

Em cifras a vida seguiu.
E houve tempestade,
falsa bonança,
pingos disfarçados,
vento violento e entristecido
uivando na noite clara como um espírito desamparado.

Houve boas novas, sorrisos,
um que outro olhar desinteressado.
E vozes desejavam boa viagem aos meninos que iam embora.

O canto manso do santo
Era canto de fim de serenata.
Era canto de sol intrometido
quando a boca da noite é refúgio;
de um cigarro que eu fumei na janela
e me fez sentir o coração mais vazio
deste mundo de corações vazios.

São nove números e o céu.
Eu tinha catorze e uma idéia boba.
”Ela fecha a porta, nem se importa”.
E eu então entendi tudo o que você havia dito,
em prosa, em verso, em palavras duras.

O manto santo do cavalheiro
Parecia pranto de quem somente apaga a luz e fecha a porta
(vai embora).
Eu tive uma conversa contigo
E naquele bar entendi quem você era,
e quem não era.
Escondido atrás de uma fumaça azul, desaparecendo e retornando;
ainda bem que no final você estava aqui.

- Porque me tira para dançar se não deseja me amar para o resto da vida?
São nove números e o céu.
Eu tinha como quem tinha uma rosa de verdade (vida curta, ela tem).
Queria as de plásticos mas, daí, qual a graça?
para sempre duras e sem perfume,
num vaso sem água e sem nada mais.

As doenças você criou, doente;
As tristezas você procurou, donzela.
O coração você congelou, senhor doutor.
Fechou a porta, sequer se importou.
Agora você chora e eu te olho
e com minha misericórdia ludibriada pelos seus justos flagelos
me torno um anjo de bondade.

Ele olhava a platéia e inquiria um a um:
- Porque te cala, homem bom?
A minha amarelinha tem nove números e um céu.