26 junho 2008

Pedro e Manuel em: um mundo ruim.

Pedro e Manuel nasceram em noite de lua cortada ao meio,
céu pálido,
nuvens de algodão preto.
Pedro, de parto normal e enfeite na porta:
“Seja bem vindo, meu doce bebê”.
Manuel, de parto anormal e corte profundo;
Na porta, prematuro conselho de vida breve:
“Cuide-se criança;
Entre todos os males deste mundo, para você somente os menores”.

Pedro cresceu ouvindo canções de fadas e viscondes e duendes e pirilampos,
serenatas de delicadeza e cuidado;
seres mágicos atirando pedrinhas de brilhantes em sua janela.
Tinha medo de lobisomem,
medo de disco voador.
Sua mãe lhe cobria o nariz,
Lhe beijava a testa
Lhe falava com seu sorriso perfumado:
- Meu doce bebê, esqueça o perigo. Eu estou aqui, e aqui ficarei até seu medo desaparecer.
E Pedro dormia
Embalado pelo som da viola dos anjos e dos querubins.

Manuel cresceu ouvindo tiros e gritos de terror
em sua cidade de casas e de vidas pobres.
Tinha medo da polícia
medo da fome.
Sua mãe gritava em meio ao tiroteio,
as balas talhando as frágeis e apodrecidas paredes
(que deveriam proteger do frio)
(que deveriam proteger da morte)
- Manuel, esconda-se embaixo da cama!
(BAM BAM BAM – tiros abafando sua voz de mãe desesperada)
- Não levante a cabeça, fique onde está. Logo, tudo passa.

Mas nunca, nunca passava.

Pedro tinha uma escola colorida
e amigos que jogavam futebol e amarelinha.
Pedro fazia bolas com sabão
Bolas com chicletes
Elaborando sonhos
Guardando certezas concretas de realização.

Manuel tinha um irmão mais velho
todo machucado.
E seus amigos brincavam de desovar corpos e guerrilha,
e fingiam seqüestros e montavam assaltos
imaginando que eram donos do morro
imaginando que eram donos de suas miseráveis vidas.

Manuel apertava o gatilho de sua arma de brinquedo
E matava seus sonhos de viver em um mundo bom.
Nenhuma garantia tinha
De que estaria vivo para ver o sol ir dormir.

O mundo em que vivia Pedro
não via o mundo onde morava Manuel.
E as balas do mundo de um
perdiam-se e encontravam-se no mundo de outro;
e toda sujeira, e toda feiúra e todo o vazio
da vida de Manuel
Trazia desconforto e balançava as garantias da vida de Pedro.
E todos – todos – fechavam os olhos
Negando-se a ver
Negando-se a assumir todas as sujeiras, toda a feiúra e todo o vazio
que também habitava cada qual
na sua condição mesquinha de ser humano.
Na sua condição partidária de morador do asfalto.

Quando adultos viraram
Pedro ganhou um carro e um futuro.
E Manuel uma AK-47 carregada e 300g de ácido lisérgico.
Pedro saiu para celebrar a vida.
Manuel saiu para reencontrar a morte.

E a bala que saiu de sua AK-47
Perdeu-se na floresta encantada
Matou uma fada
Destruiu um sonho
e encontrou a cabeça de uma doce mãe.

A doce mãe de Pedro.

Telefonaram-lhe para contar
E depois de toda raiva
E depois de toda irreversível surpresa
- dor inviolável de morte injusta –
Restou ao menino
Em seu automóvel
Com sua vaga em um lugar ao sol garantida e instaurada,
Chorar.
Como chorou na noite de lua cortada ao meio em que nasceu.

Pedro segurava a mão cinza e gelada de sua mãe
(ele, para sempre, seu doce bebê).
Ela estava séria em seu caixão branco
coberto por rosas e jasmins
Porque sabia que havia colocado seu filho
para morrer em um mundo ruim.

Pedro não tinha mais uma mãe
Para lhe cantigar canções de fadas e viscondes e duendes e pirilampos.
Nem havia mais serenatas de delicadeza e cuidado, nem seres mágicos,
nem pedrinhas de brilhantes em sua janela.

Manuel e seu medo da polícia e da fome
Seguiam em frente
Encapuzados
Sua máscara destemida de criança assustada e melancólica.

Pedro e Manuel um dia se encontraram em um elevador.
Olharam-se desinteressados.
No bolso de Pedro,
As chaves de seu automóvel,
seus projetos,
suas balas de mel.

No bolso de Manuel,
Sua pistola,
seus projeteis,
suas balas de pólvora.

Um deles subiu até o último andar do edifício mais alto da cidade.
O outro desceu ao subsolo
e lá permaneceu.

Era noite de lua cortada ao meio,
Céu pálido,
Nuvens de algodão preto.
*
Publicado no livro Letras do Brasil, pela Taba Cultural Editora.