26 junho 2008

Passam

Passam carros
e cachorros
e ciganas lendo a sorte
pela rua principal.

Passam homens com gravatas, fingindo ares importantes;
e a prostituta velha,
o ex-fumante,
o encanador que gosta de crianças.
Passa a senhorita e seu coração partido,
passa o homem de neandertau.

Um homem com um carrapato nos pés e três em seu guaipeca moribundo
Observa.

Passam crianças bugras, pretas, sujas
distribuindo cestos e redes e sexo:
- Tem moeda tio?
Mas elas não sabem falar
enquanto ninguém consegue entender,
e a vida é curta.

Passam vendedores e viciados,
passa a caça, passa o caçador.
Passa o policial corrupto,
o cadáver,
o catatônico,
Passam mulheres arrumadas
unhas feitas, perfumadas demais.

Pela rua principal lá vai a mulher infiel,
o esquizofrênico,
o preso que ganhou hoje a liberdade,
o assassino.
O velho e seus segredos,
o padre,
o colheitador de papoulas,
e aquele homem lá:
que maltratado a tudo vê
do quarto andar de um prédio que não existe.

A donzela adormeceu no banheiro da praça
– o príncipe não chegou a tempo não.
O suicida pulou da torre da igreja.
O carro não freou a tempo.
O telefone tocou, mas você havia acabado de sair.
O bêbado não segurou o próprio peso, caiu, bateu a cabeça, sangrou muito.
A bala se perdeu e acertou a sua porta.

A puta, a virgem, o santo e o pecador.
O preto, o branco, o profeta e o ateu.
O culpado, o inocente, o monstro e seu médico.
Todos pela rua principal
vão.