26 junho 2008

Redenção

O CÉU afastou-se sem estrondo
E em cada canto do mundo
todas as raças,
e cores,
e culturas de dores e amores
observaram o mesmo acontecimento.
As nuvens deram espaço ao grande zepelim,
que trazia a bordo o Demônio e seus 600 sortilégios.
Do lado contrário,
um balão carregava Deus,
e seus anjos contadores de prosa.

Era chegado o dia do confronto entre o bem e o mal.
- Não confrontarei meu inimigo, pois trago honra e paz no meu coração. Proponho então um diálogo, uma vez que não tenho rivais que não sejam tão bons ou melhores do que eu.

E não importava mais a cor dos olhos,
da pele,
o que consideravam sagrado e o que consideravam profano:
todos os povos puderam ver e ouvir
a conversa entre Deus e o Diabo.

O bêbado levantou da valeta, sóbrio.
O motorista não conseguia mais compreender os sinais.
O ator teve medo dos aplausos.
O doente ouviu seu coração bater, e soube que ainda estava vivo.

O médico quis subir no palco e recitar uma poesia.
O assassino sentiu medo da morte.
O escritor desaprendeu a ler.
A contadora de histórias perdeu a memória.

O culpado dormiu em paz.
A dona de casa resolveu sentar um pouco, e descansar.
O político conheceu a misericórdia.
A esposa arrependeu-se do adultério.

O monstro parou para ver a flor nascer.
O professor aprendeu que não tinha mais nada para ensinar.
O padeiro resolveu escrever uma canção para as crianças.
O acrobata desculpou-se, e caiu.

O poeta convenceu-se de que havia sujeira em suas palavras, e nunca mais escreveu.
O viciado sentiu fome, tomou um copo de leite.
O vaidoso se esqueceu de olhar o espelho.
A prostituta acreditou na palavra de um homem.

A cigana viu o presente em uma bola de sorvete.
O padre pediu perdão pelos seus pecados.
O guerreiro decidiu voltar para casa.
A mãe esqueceu seus filhos no estacionamento do supermercado.

O rei decidiu andar nu pelo reino.
O atleta parou para fumar um cigarro.
O pirata desejou voltar para a terra firme.
O sacerdote queimou seu livro sagrado.

O inocente não tinha um álibi.
O homem triste contou uma piada.
O aniversariante não foi na festa, porque não quis.
O ignorante compreendeu os segredos do universo.

A bruxa esqueceu os passos da feitiçaria.
O filho não voltou para casa.
O homem feliz ficou preocupado.
O emburrado quis sair para passear.

O abstêmio pediu uma dose.
O pai foi comprar cigarros, e voltou estranho.
O excêntrico tornou-se popular.
O patrão não foi trabalhar.

O criminoso pediu perdão e sumiu.
O vampiro tinha sangue correndo por suas veias.
O faminto não compareceu ao banquete.
O otimista deixou de acreditar nos homens.

O soldado abandonou a infantaria.
O cantor saiu em turnê a pé.
O delegado deu ordem de prisão para si próprio.
O condenado fez planos.

A florista teve uma crise de alergia.
O miserável apareceu de black-tie.
O estudante tacou fogo em seu juramento.
O policial pendurou sua farda no varal, e foi dormir quase em paz.

O céu fechou,
e em cada canto do mundo
todas as raças,
e cores,
e culturas de dores e amores
viram a conversa entre Deus e o Diabo dar-se por encerrada.
Estava feita a revelação.
E todos souberam quem eram
quem não eram
quem era quem.