26 junho 2008

A Morte

Caminhei como a criança que dá seus primeiros passos
e cheguei às margens do grande rio.
Em cima de sua canoa,
Ela me observava com olhos matreiros:
a morte com seu jeito familiar:
- Pronta para conhecer o outro lado?
- Pronta para voltar. Já conheço, já estive lá diversas vezes.

O rio refletia o céu da noite e era negro;
Ela segurava os remos com placidez e segurança e
por mais que remasse quase sem forças, a canoa deslizava perene e serena rio adiante.
- Aposto que pensas em tudo que deixou de fazer.
Eu a olhei, e respondi:
- Eu fiz o que poderia fazer. Nada mais.

- Eu vejo ao seu lado um demônio grande e um anjo pequeno. Para afastar o mal e deixar o bem florear, você precisará responder algumas perguntas.
Eu concordei com a cabeça e então desconhecia o medo, camarada de minhas horas solitárias.
- Um dia você disse ao seu pai que havia ódio germinando dentro de você; era porque havia perdido a fé em seu próximo?
- Era porque eu não conseguia ser boa como deveria ser; tampouco má como achava que precisava. Então a semente do ódio abrolhou, e eu desejei morrer com a mesma intensidade com a qual desejava matar.
Ela riu:
- Vocês... Consideram aborrecido existir em constante paz, precisam de dores para viver. Diga-me: o sofrimento alheio diminuía sua dor individual?
Tive que pensar para responder:
- Durante um tempo, foi assim; depois descobri que não desejava a luz de volta em minha vida, mas apenas a certeza de que não havia nada além de trevas e insuportável agonia. Não era a vida, Deus ou o destino; a crueldade vinha de mim.
- A história de um homem é a história de toda a humanidade. As pessoas desejam tudo transformar, mas ao mesmo tempo desejam arduamente que tudo mantenha-se exatamente igual. Muitos se acostumam de tal forma com a derrota, que qualquer chance de vitória parece um fardo pesado demais para ser carregado.

Surpreendi-me ao descobrir uma carteira de cigarros no meu bolso. Acendi um, sem lhe perguntar autorização.
- Continue. – disse, entre fumaças.
- Qual espécie de idiota você era? Aqueles que deixam de fazer alguma coisa porque receberam uma ameaça, ou aqueles que acreditam que irão fazer alguma coisa porque estão ameaçando?
Neste momento, então eu ri:
- Dos idiotas que não avisam, apenas atacam. Homens e mulheres perigosos não ameaçam.
Ela olhou-me, pela primeira vez, com seus olhos de álcool e fome:
- Como dominamos um homem?
- O fazemos sentir medo.
- E como se enfraquece um adversário?
- O fazendo acreditar que estamos ao seu lado.
- Você acreditava que sua arma vinha carregada por festim?
Atirei o toco de cigarro no rio, e Ela pareceu desgostar minha atitude:
- Talvez você divida o mundo entre crimes leves e crimes pesados – atrevi-me a enfrentá-la - mas não é assim, na verdade.
Suas perguntas eram armadilhas embrulhadas em pequeninas palavras.
Eu havia sacado a morte.
E Ela prosseguia:
- Porque os homens comportam-se?
- Porque temem a punição. E nada mais.

Ela então contou-me a ordem após a morte da carniça:
atravessava-se o rio,
enfrentava-se o cão,
e então se entra por uma porta
da qual jamais tornaremos a sair.
Porém o cão eram suas perguntas sobre a vida.
Porque de vida, A Morte nada entendia, e aproveitava-se de suas almas sofredoras para tentar descobrir pistas sobre o desconhecido.
A Morte não é rainha.
É súdita, como todos nós.

Ela não percebeu que eu havia lhe desvendado os olhos crus.
- Qual o inferno de Deus? – quis saber, por último.
- Seu amor pelos homens.

Então, dentro de minha cabeça, soou o sibilo mais agudo deste mundo.
Fechei os olhos na tentativa inútil de proteger-me, e repentinamente, tudo serenou.
Eu havia voltado para a minha casa.

*
Publicado na Antologia de Contos Fantásticos, pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.