26 junho 2008

Martina e seu Deus

Martina chegou ao céu.
E a primeira coisa que fez foi procurar Deus.
Queria explicações. Muitas explicações.

Na sala celestial do Pai Todo-Poderoso, nada demais, nenhum luxo, aparentemente nenhum pecado capital.
Cadeiras de madeira corroída, uma mesa, uma máquina de escrever – que surpreendeu exageradamente Martina, que imaginava equipamentos ultra-modernos, tecnologicamente desenvolvidos, de design arrojado e contemporâneo, piscantes e coloridos a vigiar e controlar toda a humanidade. Sem conseguir disfarçar seu choque pela precariedade do local de trabalho divinal, adentrou a saleta observando escancaradamente cada miserável detalhe.

Uma debilitada lâmpada pendia do teto destacando a fumaça azul de um cigarro, chegada de mãos brancas e perfumadas, dedos longos:
- Entre, minha filha, e diga qual é o seu problema.

Martina repentinamente sentia-se constrangida.
Imaginara a vida toda aquele encontro, e até anotara em um caderno todas as suas dúvidas e reclamações, ensaiara inclusive os xingamentos que dirigiria à Ele, quando Este se perdesse em suas explicações mal elaboradas.
Agora Deus estava ali, diante dela, velho, surrado, cheio de rugas, uma barba branca mal cuidada, um cabelo prateado e despenteado, levemente sujo, e – não era possível – um cigarro! Deus fumava um cigarro de filtro vermelho!
- E então? – ele continuou, movimentando-se ligeiramente para apagar o fumo em um cinzeiro de latão, envelhecido – Pensa que tenho toda a eternidade? Você não é a única a querer reclamar e perguntar, e então tornar a reclamar e perguntar. Vamos depressa.
Deus era hostil, mas sua ironia superdotada o fazia parecer cordial.
Sua irritação pairava na sala lado a lado a fumaça de seus cigarros, e não era preciso ser muito sensível para aprisionar tal resistência e antipatia por parte do Criador.
- Hã... Bem, na verdade anotei tudo neste papel aqui. Posso me sentar neste banquinho?
Deus concordou com a cabeça, olhando pela janela, modos desinteressados.
E Martina lembrou-se do tempo todo que esperara para conversar com Ele, em todo o interminável tempo que passara sem nenhum banquinho para descansar suas pernas, fatigadas de aguardar em pé por respostas que nunca chegavam. E agora que deveria botar para quebrar, pedia para sentar.
Martina sentiu-se uma imbecil. Mas conteve-se, e ali permaneceu.

Puxou o caderno, com um desenho da Minie na capa, cruzou as pernas, encarou-o, descruzou as pernas e pigarreou:
- Certo, vamos lá. Primeira pergunta: se o sexo é somente para a procriação, Senhor, porque nos deu o tesão?
Deus encarou-a com surpresa e comédia pelo conteúdo da pergunta; e tão logo pareceu ofendido.
- Ora, e quem disse que sexo é para procriação?
- Você.
- Onde? Quando?
- Na Bíblia.
Deus virou os olhos e parecia impaciente. Então respirou fundo, sentou em frente à menina e, como aquele que repete um fadado discurso pela milionésima vez, iniciou:
- Tenho certeza de que, em seguida, irá me perguntar sobre: aids, velhice, doenças, religião, guerra, fragilidade humana, dinheiro, aborto, drogas, sistema nervoso central e capacidade cerebral. Não necessariamente nesta mesma ordem. Estou certo?
Martina olhou-o; olhou então para o papel em suas mãos: sim, realmente, suas perguntas passavam por todas estas questões.
- Pois bem, o que tenho a lhe dizer é: olhe para os lados, minha filha. Olhe minha sala, minhas paredes descascadas, minha cortina cheia de poeira, meus dedos amarelos, este maldito e impregnante cheiro de cigarro, minhas vidraças manchadas, meu carpete rasgado, minha alergia que nunca passa... O que pensa sobre mim? Até onde acredita que vai minha habilidade de controlar vocês?Criei seres independentes, teoricamente capazes de lidar com a própria vida. É verdade, não lhes fiz muito inteligentes, dei-lhes somente um mísero de todo o talento racional que poderiam usufruir, se eu houvesse realmente acreditado em vocês alguma vez, ao longo de todos estes anos. Você há de concordar comigo: imagine o que não teriam vocês feito, se eu os tivesse criado mais espertos e racionais? Poderiam fazer grandiosas obras mas, paralelamente a isto, estariam descobrindo maneiras de aniquilar multidões utilizando borboletas e canudinhos. Atrapalhando tudo, como sempre.
Deus falava rápido, e alto, e Martina quase nem entendia suas palavras. Ele continuava, frenético, servindo-se de café, acendendo cigarro sobre cigarro:
- Aids: o homem inventou. Criou, deu-lhe resistência, espalhou-a. Não tenho nada a ver com isso.
- Doenças: também sou inocente. As pessoas não se entendem com elas mesmas, e criam sozinhas tumores, cânceres, cistos, e mais o diabo a quatro que vemos por aí. Não faço nada, absolutamente. Aliás, doenças sequer existem, o que temos por aí são doentes e nada mais.
- Religião: ora, faça-me o favor. Quero novamente deixar claro: não tenho categoricamente nada a ver com bíblia, virgens e rios de mel, livros sagrados, histórias malucas, bispos curando gente ao vivo pela TV: NADA! O homem inventou, o homem inventou.
- Fragilidade Humana: essa foi a única coisa que acertei: fiz vocês mais sensíveis e frágeis que moléculas de hidrogênio (Deus ri, baixinho). Pelo menos morrem fácil, não duram muito para continuarem perambulando inutilmente por aí.
- Dinheiro: o homem inventou. E ponto final.
- Aborto, drogas, esqueça: não faço nada, quem faz são vocês, criaturas. Descobrem a maneira de fazer filhos, o fazem, e em seguida descobrem uma maneira de tirá-lo. E as drogas, olhe, ainda fui legal nesta parte: criei umas ervinha aqui e ali, para o pessoal dar uma relaxada, não viver o tempo todo com a desgraçada condição de ser um pobre e estúpido humano, mas o que vocês fizeram? Como me agradeceram? Inventaram drogas em laboratórios, potencializaram o que era somente natural, entupiram-se de porcarias, destruindo-se e destruindo tudo a sua volta através da pouca chance de prazer que lhes ofereci. Ora, francamente: vocês humanos cansam.

Martina mal conseguia pensar.
Deus não era Deus por acaso, pois calou sua boca reclamilda de longos 40 anos em breves cinco minutos, sem lhe dar nenhuma oportunidade de defesa ou contra ataque.
Deus estava em pé, e era possível ouvir sua respiração pesada e aflita:
Martina notou que o homem estava matando Deus, exatamente como o coração matava o homem.

E foi embora, sem querer mais explicações.
Martina era melhor que Ele.
Deus era feio.
Deus era sujo.
Deus era malvado.
Deus era seu irmão gêmeo.