26 junho 2008

Joaquina pede água.

- O tempo tem esfriado.
Me dizia a velha senhora, de dentes amarelos e de mentira.
Seu nome foi Joaquina.
- Espero que no outro lado não esteja frio – ela abriu um tímido sorrisinho – “... temo o inverno por ser a estação do conforto”.
Não reparei na citação de Rimbaud. Me sentia tonto.
- Acho que você não deve se preocupar com isso – falei, por não saber o que falar.
Ela não perdeu a placidez quando respondeu:
- Até às sete horas da noite vou estar morta. E eu sei disso.

Era para ser um simples e corriqueiro favor.
Fui visitar alguns clientes na Cantareira, e Arnaldo, meu tio, pediu (pelamordedeus!) que eu entregasse algumas roupas para Flávia, sua ex-namorada, que morava por aqueles lados.
- Não quero nunca mais ver aquela biscate!
Eu não podia negar.

O endereço, anotado em rabiscos num guardanapo, me levou até uma casa azul e rosa, com um pé de jabuticaba do lado da varanda e tulipas nos canteiros.
Mas lá não morava nenhuma Flávia.
A porta da frente estava escancarada. Toquei a campainha e ninguém apareceu. Podia ouvir o barulho da televisão, e ver as janelas, todas abertas. Estranhei. Toquei outra vez. Nada. Bati palmas. Silêncio e só.
Resolvi gritar:
- Hey! Tem alguém em casa?
Uma voz surgiu distante:
- Entre meu filho, estou aqui em cima.
Deveria ter considerado, no mínimo, tal situação esquisita, e dado o fora dali antes que tudo piorasse. Porém quando me dei por conta, já subia as escadarias e alcançava uma porta de madeira, pintada de verde.
Na cama, uma velha senhora estava deitada, seus olhos mansos voltados para um lustre colorido. Parecia esquecida ali, apesar do asseio impecável do quarto, os lençóis tão brancos e limpos que davam a impressão de serem celestiais.
- Que bom que veio – ela disse, e só então me conscientizei do absurdo das circunstâncias.
- Hã, olá senhora. Estou procurando por uma moça chamada Flávia. Conhece?
Ela não pareceu me ouvir. Estava concentrada tentando, inutilmente, se sentar:
- Não conheço nenhuma Flávia. Mas fique a vontade – disse, fazendo um gesto gentil com a mão.
A ajudei se acomodar, e tive a impressão que poderia quebrá-la ao meio, tão frágeis e finos eram seus ossos. Sua pele mais parecia um delicado tecido de algodão.
- Obrigada, filho.
- De nada. – respondi cordialmente, já em movimento - Bem. Se a senhora não a conhece, vou indo embora – e alcançava novamente a porta quando ela falou:
- Por favor, fique. Eu estou morrendo.

E ela estava morrendo, realmente.
Havia tomado um coquetel de remédios letal, que paralisaria seu sistema nervoso e interromperia sua vida em pouco mais de duas horas.
- Tu não tá falando sério. Tá? – me sentia, subitamente, apavorado.
Ela balançou a cabeça afirmativamente, e me mostrou os vidros e as cartelas de remédios, algumas vazias, outras pela metade.
- Meu médico receitou. Pedi somente que fosse lento e sem dor.
Como assim?
- E quem nesse mundo quer morrer devagar?
- Se for sem sofrimento, eu quero. Morremos uma única vez na vida, e este não pode ser um momento vão, ligeiro, insignificante. Quero estar viva para ver a minha morte chegar.
Senti minha bexiga apertar. Sempre tenho vontade de ir ao banheiro quando fico nervoso.
- Esse teu médico é um pilantra, isso sim.
- Não, meu filho, não o julgue sem de nada saber. Ele é um médico bom, humano, que entende quando a vida precisa terminar – ela puxou da gaveta um cigarro, e eu ainda tive a capacidade de me espantar – E mais: se não me ajudasse, eu daria outro jeito e ele sabe disso. Apenas facilitou as coisas para mim.
Sentei na cama e acendi um cigarro também, mandando definitivamente a boa educação para o diabo:
- E porque quer morrer?
Ela suspirou tão profundamente que chegou a me doer:
- Ah, eu cansei de estar viva, esta é a verdade. Olhe para mim: estou velha, triste, meus amigos estão mortos, não entendo porque minha hora não chega. Fumo, sempre fui sedentária, nunca cuidei da minha saúde, já tive três infartos, mas a morte simplesmente não vem. Agora vou obrigá-la a comparecer.
- E a tua família?
- Uma filha ingrata que nunca me deu netos, e só. Tenho essa casa e meus dois gatos, nada mais. Estou entediada, cansada e com sono.
- Me desculpe perguntar, mas quantos anos a senhora têm?
- Muitos, meu filho, muitos. Anos até demais.
- Eu não acredito.
Na verdade não quis dizer nada disso, apenas pensei alto.
- Não acredita em que?
Hã?
- Nessa situação – achei melhor responder com sinceridade; não podia mentir para alguém que estava morrendo - Eu só vim procurar uma garota para lhe devolver algumas quinquilharias, e encontro uma senhora que acabou de cometer suicídio, mas ainda não morreu. Que grande merda.
Rapidamente me desculpei pelo palavrão, e ela apagou o cigarro numa xícara de café vazia:
- Você é jovem e acha a vida bonita. A morte lhe é antipática e ruim, significa interromper todos os teus anos, tua beleza, teus sonhos. Mas um dia os anos viram fardos, a beleza se torna pó e os sonhos terminam. Então a morte deixa de ser ameaçadora, e é a vida quem passa a horrorizar.
Ela calou-se por alguns segundos, como se pensasse em qualquer coisa; em seguida riu debilmente:
- Ora, você não pode entender. Ainda não.
Pigarreei.
Existem coisas que prefiro ignorar:
- Quer dizer que a última pessoa que você vai ver antes de morrer sou eu?
Ela puxou outro cigarro:
- Parece que sim – respondeu sinceramente satisfeita - Pelo menos o silêncio não é melhor que a sua voz, e isso é muito raro.

Apesar do fim iminente, ela não queria conversar. No entanto, parecia necessitar da minha presença ali, nos seus últimos instantes. De certo não queria estar sozinha quando a morte passasse pela porta verde do seu quarto.
- Gosta de música? – perguntei, tentando oferecer a situação um mínimo de normalidade.
- Não mais, elas me entristecem muito. Quase todas as coisas boas e bonitas da vida parecem vestidas de melancolia quando surgem para mim. Como se eu não pudesse participar de nada daquilo, somente testemunhar. É mais ou menos como passar a noite de natal sozinho, escutando o teu vizinho rindo com toda a família no apartamento do lado, entende?
- Humm. – apenas grunhi. Não concordei nem discordei, porque não sabia se concordava ou discordava.
- Você já passou uma noite de natal sozinho? – ela perguntou, sutilmente desinteressada.
Pensei um pouco.
Não, nunca havia passado nenhuma noite de natal sozinho.
- É bem chato – concluiu.

Anoitecia.
Fazia quase uma hora que eu estava ali, esperando com uma velha senhora de dentes amarelos sua morte chegar.
Notei que seus lábios esbranquiçavam, e quis saber se estava tudo bem.
“Tudo maravilhosamente bem”.
Foi o que ela me respondeu.

Senti vontade de perguntar como era estar morrendo, mas decidi ficar quieto, num respeito sublime e infundado pelo desconhecido. Aquele, com certeza, deveria ser um momento único, e muito, muito íntimo.
Ela acendeu mais um cigarro e fechou os olhos.
Falou:
- Sabe o que me deixa mais aborrecida?
Eu estava em pé na janela de seu quarto, e o céu alaranjava.
- O que?
- Tenho certeza que os mortos não fumam.
Eu sorri, mais por solidariedade do que por graça. Estava deprimido ao mesmo tempo em que me sentia minuciosamente vivo.
Feliz por ainda haver vida em mim; triste por ver a de Joaquina tão no fim.
- Me alcance aquele copo de água, meu filho. Minha garganta está ficando seca.

Ela morreu e de repente ficou frio.
Minhas mãos estavam mais geladas que seu corpo, agora abandonado.
Mesmo já parecendo morta quando a encontrei, agora ela me dava a melancólica sensação de estar viva.
Cobri seu corpo como se pudesse ainda protegê-la do inverno.
Em seguida desci, desliguei a tevê, fechei todas as janelas. Deixei sua casa sem reparar em nada, numa tentativa acanhada de preservar um pouco da dignidade daquela velha senhora, de dentes de mentira.

Apenas encostei a porta da frente, e fui para casa me sentindo gelado.