26 junho 2008

Gibraltar

No final da minha rua existe uma casa verde
onde mora um homem chamado Gibraltar.
Ele não é forte como um rochedo e, quando sai,
e sobe pela rua de calçadas quebradas e cachorros nervosos
vem avaliando e monitorando seus sonhos
- sua vida tratada como um estoque de enlatados para viagem -

Ele conta que pela poesia fora seqüestrado, quando criança ainda era,
e que era também livre - que tudo a ele pertencia - pois não tinha nada.
Gibraltar era dono somente de um grande medo
e de uma casa verde no final de uma rua.

Ele dizia que a consciência é bendita.
Que o tempo, quando passa, se torna bom.
Que as drogas são o imperativo dos poetas;
e que a lei que transforma cultivadores de papoula e peyote em gângsteres
impede que o escrivinhador explore a dor da vida.

Falava que as pessoas têm somente a si mesmas,
e não costumam levar sua condição solitária numa boa.
Por isso deliram,
sem nunca lembrar de comemorar o simples e complicado fato de continuarem vivas.

“As rezas funcionam”, ele garantia
subindo pela rua de calçadas quebradas e cachorros nervosos;
deixando para trás sua casa verde
carregando seus sonhos enlatados,
sua venturosa solidão.

Havia um machado suspenso sobre a cabeça de Gibraltar
e existe um momento em que todo mundo pode enxergar.
Sua cama, tão visitada, era a mais solitária entre todas as camas,
de todas as casas verdes,
no final de todas as ruas de calçadas quebradas desse mundo.
Gibraltar se sentava em uma pedra, no cume do precipício
e ali ouvia mensagens do mundo inferior.
Isso punha melodia no blues que era sua vida errada.

Gibraltar morava em uma casa verde no final da minha rua
e no caminho havia cachorros nervosos, sonhos enlatados e calçadas quebradas.
Ele dizia que era guia de uma irmandade de perdedores:
homens que não tinham nada e por isso tinham tudo.
Seus nomes, ele invocava, poderiam ser escritos na água.
E enquanto a juventude é uma borboleta
e a velhice uma lagarta
para eles nada disso era levado em conta:
eles tinham ingressos para o paraíso.

Um dia,
o machado caiu sobre cabeça de Gibraltar.
Ele não é forte como um rochedo;
e sua casa verde ficou velha
virou solidão.
Ele deixou-me um recado
escrito no guardanapo de um botequim:
“Os homens são algo para se temer. Sempre os homens, e nada mais”
Guardei seu conselho no bolso e segui pela rua de calçadas quebradas.
Se assim é, temam-me todos: estarei chegando para o jantar.

*
Publicado na Antologia de Escritores Brasileiros, pela Academia Poçoense de Letras e Artes.