26 junho 2008

A gente quer inteiro e não pela metade.

A raiz de todo o mal é a educação.
Seja quando alguém decide documentar crianças empregadas pelo tráfico ou arrastar meninos pelas avenidas cariocas, surge aos quatro cantos sociólogos, psicólogos, antropólogos, assistentes e afins, repetindo sempre que, para acabar com tanta violência e disparidade social, é preciso incentivar e facilitar o acesso à educação.
E esta é a verdadeira solução.
Segundo um estudo da Universidade Federal Paulista, oitenta por cento dos jovens que estão na Febem apresentam distorção entre idade e série. Noventa e um por cento não terminaram o primeiro grau. E se, com canudo na mão, já é difícil encontrar qualquer sinal de esperança neste mercado de trabalho abarrotado e moribundo, em um país onde um gari precisa ter o segundo grau completo para estar habilitado a trabalhar, para que lado correr? Para o lado do crime, naturalmente: onde tudo é mais fácil e rápido, além de altamente lucrativo.
O problema não é qual a solução para o mal – a educação reduziria drasticamente tantos dados alarmantes; mas de que maneira aplicar tal solução de forma realmente eficaz.
Se boa parte dos estudantes abandona a escola porque precisa, paralelamente, trabalhar, outra boa parte deixa os estudos de lado por não conseguir entender para que regras gramaticais e mínimos múltiplos comuns possam ter qualquer utilidade em suas vidas, algum dia.
Não tenho certeza de que construir novas escolas e incentivar alunos com bolsas-estudos e propaganda possa entregar à sociedade cidadãos minimamente decentes. A educação não poderá ser solução para nada enquanto não passar por um crítico e minucioso processo reformulativo.
Nossos métodos educacionais cortam séculos sem alteração. Não condeno o ensino de química, física e matemática, mas não compreendo o completo e absoluto descaso quanto aos assuntos referentes e presentes na realidade de cada aluno. Não é admissível que não tenhamos aulas obrigatórias de educação sexual, sociologia e filosofia em todas as escolas; que assuntos como racismo, drogas, tráfico, sexo, violência e preconceito não sejam sequer levantados; que muitos professores continuem mantendo seus alunos sob regimes autoritários, que não abram espaço para discussões e que, impreterivelmente, considerem mais importante “concluir o plano de ensino” do que tentar descobrir porque nosso país vive em completo caos.
Os estudantes são sempre dispensados do trabalho de pensar. Devem apenas decorar e responder, como uma tropa de soldados bem treinados.
E porque o ensino brasileiro não caminha conforme a humanidade, não acompanha seus avanços, suas mudanças?
Porque um povo que pensa é um povo que contesta. Não interessa a nenhum comandante megalomaníaco – como a maioria dos comandantes, sejam políticos ou religiosos – tentar manter sob controle pessoas racionais, sempre mais difíceis de serem manipuladas e ludibriadas.
É com este pensamento que há dois mil anos milhares e milhares de “fiéis” continuam acreditando em uma história cheia de buracos, contradições e fantasias. São com programas bobos de entretenimento que se mantêm populações inteiras caladas e distraídas, enquanto nos bastidores os ratos fazem a festa. São com aulas medíocres e assuntos ultrapassados que se conservam jovens alienados, afastados da escola e de qualquer perspectiva. E assim o Brasil desperdiça, diariamente, centenas de cabeças pensantes, cérebros que, em um futuro muito próximo, poderiam tomar decisões sensatas e ditar os novos rumos de nosso país.

De nada valerá pagar para que alunos freqüentem a escola, ou tentar convencê-los de que é melhor ir para uma aula de Microbiologia Celular a se entupir de drogas e enveredar-se pela delinqüência.
O que vejo em meu país é um desespero cego em podar os galhos de uma árvore venenosa, que destrói nossa paz, nossos raquíticos restos de esperança. E assim continuamos, como moscas em volta da lâmpada, chegando sempre a lugar nenhum.
Como ensinou certa vez Nelson Mandela, é preciso olhar nos olhos a verdade e reconhecê-la, sem meias palavras ou subterfúgios, sem hipocrisia e retórica política. E a verdade é que a essência de nossos maiores problemas sociais não está nos ramos, mas em raízes profundas e entrevadas que, para ELES, nunca interessará destruir.
Cabe a nós, então.


Publicado n'Os Armênios