26 junho 2008

Denúncia

No Brasil, os dados aterrorizam e fazem pensar:
A cada oito minutos, uma criança sofre violência física dentro de casa.
Uma em cada doze crianças é, de alguma forma, explorada; o país está em terceiro lugar no ranking mundial de trabalho doméstico infantil.
A cada quinze segundos, uma mulher é espancada, geralmente dentro de sua casa, por seu companheiro;
A cada ano, pelo menos quinze mil idosos são vítimas de espancamentos, torturas e abusos sexuais.*

Neste círculo de violência particular e mascarada, pode-se perceber a participação ativa de dois elementos principais: o agressor e a vítima. Cada caso continua sendo cada caso, porém é significativa a situação de poder que o primeiro – sempre - possui em relação ao segundo. Nas mulheres, a dependência ao marido vai desde a financeira até a pior – a emocional; os idosos preferem calar a correr o risco de serem jogados em asilos ou abrigos; e as crianças, alvos fáceis e frágeis, aprendem desde cedo a irreal importância de uma brutalidade desmedida, que as tornará cada vez mais violentas, intensificado mais uma lamentável e nociva bola de neve.


Os números de denúncias crescem significativamente a cada ano. O que não significa que mais pessoas conscientes decidiram delatar, mas que os atos violentos cresceram proporcionalmente. E ainda mais.
Porém, a forma como o assunto é tratado, seja em campanhas de TV ou matérias de revistas e jornais, parte e prossegue basicamente de dois pontos: para a vítima, pede-se a denúncia. Para o agressor, pede-se por consciência.
O que me parece, a um primeiro momento, incoerente.

Primeiro porque, se a vítima tivesse coragem ou independência suficiente, já teria delatado seu agressor sem que nenhum ator global precisa-se pedir-lhe. E segundo: uma criatura capaz de agredir violentamente uma mulher, um idoso ou uma criança, não irá se comover com trilhas dramáticas e apelos teatrais.
Logo, os elementos que tornam este círculo de violência social possível não estão aptos a reagir ou mudar. E é nesta parte que entramos eu e você.
Quem irá realizar a denúncia que colocará um ponto final a tantos abusos e desrespeitos será feito por um inesperado personagem social: o vizinho, o amigo da família, o dono do mercado da esquina, a amiga da amiga, pessoas distantes e neutras deste meio viciado de violência.
A velha história de que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher perdeu-se com o tempo e o aprimoramento dos requintes de violência. Era válida quando se tratava de pequenas cenas de ciúme e banalidades, mas quando socos, chutes e estupros uniram-se ao roteiro, é obrigação nossa tomar alguma providência.
Quando calamos, também consentimos. E quando consentimentos, nos tornamos também violentos. Porque podemos optar por não integrar este estranho complô de silêncio existente em torno da violência doméstica no Brasil, e denunciar. É anônimo, e muitas vezes gratuito também.

Se, enquanto publicitária, me caísse em mãos um trabalho pedindo pelo fim da violência doméstica, certamente não estaria o público-alvo voltado para as vítimas ou os agressores.
Estaria voltado para você.
E se você sabe, por favor, não cale mais. Denuncie.

* Fonte: Unicef e Jornal O Globo


Publicado n'Os Armênios