26 junho 2008

Confesse, Gioconda.

Chegou em uma manhã cinza de inverno.
Envelope pardo, papel branco, manuscrito em vermelho.

“Senhorita Gioconda: seus dias de mentira estão terminando. Eu sei tudo aquilo que você gostaria que ninguém soubesse”.

Não estava assinado, não havia nenhuma identificação.
Gioconda largou a xícara de café em cima da mesa, e sentiu-se pálida.
Seu marido entrou na cozinha e estranhou sua cor:
- Tudo bem Gio?
- Tudo... Tudo bem...

No mês seguinte, nova carta, mesmo envelope sem identificação:

“Muitas vezes me perguntei como você conseguia deitar sua cabeça no travesseiro, toda noite, e dormir em paz.
Você não passava de uma garotinha quando seduziu seu velho patrão. Não teve nenhuma vergonha de levá-lo para cama embaixo dos olhos de sua patroa, que lhe recebeu em sua casa no momento em que você mais precisava de ajuda. Você a traiu, a humilhou, e por fim, grávida, destruiu seu casamento.
Sabia que, depois que você partiu, levando consigo seu marido, aquela senhora que lhe estendeu a mão se entregou a bebida? Sabia que, em pouco mais de um ano, aquela senhora que te deu comida e abrigo escreveu uma carta de despedida? Sabia que aquela senhora, que te deu proteção e uma cama quente para dormir meteu uma bala na cabeça?
Eu sei.”

Gioconda amassou o papel nas mãos.
Passara os últimos trinta dias agoniada, sentindo-se invariavelmente observada.
Olhou para os lados a modo de verificar se estava, realmente, sozinha.
Estava.
Algumas semanas e uma nova carta chegou pelo correio:

“O bebê que você esperava, morreu. Um aborto espontâneo. Mas você – confesse – sentiu-se aliviada. Já havia conseguido o que tanto queria (seu patrão e seu dinheiro), e um bebê somente estragaria seus planos e, provavelmente, seu corpo jovem.
Manteve-se ao lado do velho durante alguns anos, não sem manter encontros furtivos com o motorista que ele, ingenuamente, pagava para te levar para cima e para baixo, a gastar seu dinheiro.
Evidentemente, devia lhe ser muito difícil fazer sexo somente com aquele homem, que considerava velho e nojento.
Então você novamente engravidou.
E mentiu despudoradamente ao velho que era ele o pai. E o pobre infeliz, em sua confiança cega, assumiu o filho do motorista.
Quantas vezes você riu deste pobre homem, enrolada com o outro em seus lençóis, em sua cama?
Sim Gioconda.
Eu sei”.

Gioconda sentia-se tonta.
Não entendia como alguém poderia conhecer tantos minuciosos detalhes sobre seu maldito passado; sempre acreditou que, se nele não pensasse, se dele se esquecesse, ele também deixaria de existir.
Mas acontece que alguém sabia sobre seus crimes. E parecia disposto a pressioná-la. Até o seu fim.

Sua vida se tornou um imutável pesadelo.
Não dormia, não comia, não falava; sentia-se perseguida, vigiada. Emagreceu. Ganhou olheiras fundas.
O marido e os filhos perguntavam se estava tudo bem, e Gioconda sorria forçada, um sorriso amarelo e fraco, e respondia que sim, estava tudo muito bem.
A carta seguinte não esperou um mês para chegar.
Em dez dias, o carteiro deixou o envelope pardo na caixa de correio.

“O bebê nasceu. O verdadeiro pai, o motorista, reivindicava seu direito pela paternidade.
Mas você não permitiu que ele sequer conhecesse a criança.
E quando sentiu-se ameaçada, pôs-se a arquitetar seu novo plano.
Rasteiramente, foi fazendo a cabeça de seu velho marido contra o motorista, dizendo-lhe que ele não era de confiança, que usava drogas, que era um marginal, que dava em cima de você. Não se passou um mês até o pobre velhote demiti-lo, para sua inteira felicidade.
Você sabe o que aconteceu? O infeliz, desempregado, desesperado por não poder conhecer o filho e contar toda a verdade, enterrou-se no álcool e nos comprimidos para depressão. Bateu seu carro, cinco meses depois de sua demissão, e hoje está paraplégico.
Eu sei.”

Na vida de Gioconda, não havia mais nenhum resquício de paz.
As cartas não paravam de chegar.
Já não eram mensais. Passaram a quinzenais, semanais, chegavam quase todos os dias.
Todas as manhãs, Gioconda tomava um Valium e prostrava-se em frente a janela principal, esperando o carteiro aparecer com novas acusações, novas sentenças de CULPADA.
Sua família começou a se preocupar com sua saúde. Seu marido contava que, nas poucas noites que a esposa dormia, tinha pesadelos, debatia-se na cama, murmurava que era inocente.
E as cartas continuavam.

“Quando seu velho marido morreu, eu sei o quanto você ficou feliz. Já não agüentava mais aquele velhote, não tinha mais paciência para suas conversas, seus carinhos.
Ele já estava doente, mas mesmo assim, você tinha pressa.
Contando com seu espólio, trocou seus remédios para o coração e para a pressão por placebos.
Quanto tempo o infeliz levou para morrer?
Pouco mais de três meses?
E quanta alegria contida no dia de sua morte, não é Gioconda?
Agora você tinha dinheiro, e não precisava de mais ninguém.
Mas eu sei”.



“Com dinheiro no bolso e um filho nos braços, você mudou de cidade; mas não de vida. Em pouco tempo, gastou toda a herança recebida, e estava novamente sozinha, miserável, com uma criança pequena e faminta nos braços.
Como nunca se preocupou em estudar e nada sabia fazer, você caiu nas ruas, vendendo seu corpo por moedas e restos de comida.
Porém você já não era tão jovem, seu corpo já não era tão belo, você já não valia tudo que imaginava valer.
Lembra-se dos homens repugnantes com os quais se deitou? Lembra do quanto eles cheiravam mal, lembra das humilhações?
Um dia, um deles te bateu.
Outros já haviam te agredido, mas aquele homem tanto te espancou que quase a matou. E quando você já estava desfalecida no chão, veio à lembrança da arma. Da arma ao lado da cama, da arma que um deles te deixou como forma de pagamento, dizendo valer “uns duzentos contos”.
Você atirou, e matou o sujeito.
Eu sei tudo sobre aquela tarde Gioconda”.

Gioconda adoeceu, mas não quis ir para o hospital.
As cartas continuariam chegando, e ela precisava estar em casa para recebê-las.
E se alguém as descobrisse? E se um de seus filhos as encontrasse, o que poderiam pensar?
A vida de Gioconda, tão segura e feliz, não existia mais. Ela continuava morando em uma casa grande, tinha carro, dinheiro, um belo guarda roupa, viagens programadas, filhos saudáveis, um marido dedicado, mas agora somente vivia para esperar as cartas e suas sentenças.

“Mesmo assim, você encontrou um novo infeliz para enganar. Apesar de já não ser tão bonita nem tão formosa, seu atual marido resolveu te estender a mão. Por sorte ou acaso, desta vez seu alvo era um homem solteiro.
Solteiro, mas com uma filha adolescente, da qual você não gostava.
E para não dividir sua atenção (e muito menos seu dinheiro), conseguiu destruir o relacionamento entre pai e filha. A menina saiu de casa, jurando nunca mais voltar, e desde este dia, o pobre homem chora todas as noites.
Você sabe disso.
Sabe que toda vez que ele deita e não consegue dormir, toda vez que ele se tranca no escritório, toda vez que ele toma banho, ele chora pela filha que foi embora.
E eu a vi estes dias, fazendo ponto em uma esquina nojenta, na avenida principal. Vendendo seu corpo por moedas e comida, sofrendo agressões e humilhações tal e qual você sofreu.
Mas isso não te importa, não é?
Mesmo sabendo onde a menina se encontra, você não conta para ele, você não a quer de volta.
Eu sei Gioconda”.

Esta foi a última carta que Gioconda recebeu.
Não podia mais agüentar um minuto.
Seus dedos tremelicavam, e ela tentou tomar um comprimido, mas regurgitou-o, seu estômago estava por demais enfraquecido.
Foi até o escritório.
As crianças estavam no colégio, o marido trabalhava, a empregada havia ido até a feira.
Sentou-se, pegou um papel em branco e uma caneta vermelha, e colocou-se a escrever:

“Agora é chegada a hora de você pagar pelos crimes que já cometeu”.

E sem assinar, colocou o papel em um envelope pardo, escreveu seu endereço, caminhou lentamente até o correio e lá depositou a carta que em breve chegaria a sua própria casa.
Quando voltou, com a arma de seu pobre marido, atirou contra a cabeça.
Jorrou sangue na parede azul, e o pesadelo terminou.


Publicado na coletânea Caminhos do Medo, pela Editora Andross.