30 dezembro 2008

A grama do vizinho é mais verde que a sua?

Então olhe com atenção.
Se aproxime da cerca que separa seus quintais e observe atentamente.
Mais perto, mais perto.
Está vendo ali, ao lado da árvore, as ervas daninhas?
Está vendo aquele formigueiro destruindo o roseiral?
Está vendo aquelas folhas secas? Pelo visto a folhagem morreu.

Desista, cherry: de perto, ninguém é normal, nem perfeito, nem cem por cento feliz.

E isto não é, em absoluto, uma constatação pessimista ou triste.
Pelo contrário.
Gostamos muito de olhar para os outros imaginando o quanto eles são mais felizes do que nós.
O quanto possuem mais dinheiro que nós.
O quanto estão mais equilibrados e harmoniosos que nós.
O quanto o casamento da vizinha é mais feliz e realizado que o nosso.
Pois eu tenho uma novidade: não, eles não são mais felizes, nem mais ricos nem mais realizados que você ou eu.
E da mesma maneira que os observamos, e pensamos no quanto são privilegiados - enquanto nós estamos na merda - eles também olham para nossa grama e pensam o quanto ela é mais verde e mais bonita que as suas.
Se pudéssemos entrar nas casas e nas vidas das pessoas que costumamos invejar, perceberíamos que todas elas peidam, e brigam, e contam moedas para economizar.
Perceberíamos que, aquilo que mostramos para os outros, é aquilo que desejamos que os outros pensem de nós. Não necessariamente a realidade.
E se nem tudo que pensam sobre você é verdade, porque tudo o que você pensa sobre os outros seria?

Todos nós observamos e somos, constantemente, observados.
Na maioria das vezes, erroneamente.

Quando eu era bem pequena (mas bem pequena mesmo, algo em torno dos 2 anos de idade) meus pais eram donos de uma rede de supermercados e éramos considerados pelas pessoas ricos. Vivíamos em uma casa grande, com uma piscina grande e tínhamos um carro grande. Todo mundo olhava para a nossa família e pensava: nossa, que lindos, que felizes, que inveja! Um casal simpático, uma filha simpática, dinheiro no bolso e saúde para dar e vender.
Isso por fora.
Quem entrava pela porta da pequena mansão onde meus pais habitavam descobria rapidamente que nem tudo o que reluzia era ouro.
Minha mãe, nesta época, era alcoólatra. Meu pai, que nunca bebeu e nem fumou na vida, de saco cheio da esposa pinguça, tratou de arrumar uma amante.
Isso parece a descrição de uma família feliz?
Não, e nem era para ser.
Mas todo mundo achava que sim, incluindo pessoas muito próximas.
Então minha mãe descobriu a traição, se separou de meu pai e parou de beber.
A rede de supermercados faliu. Quebrou. Se encheu de dívidas e fechou as portas.
Agora, quem olhava para nós pensava: ora, coitados.Ledo engano.
Enquanto todo mundo cantava nossa tragédia, nossa família começava a se reconstruir para ser feliz de verdade.
Minha mãe largou a vódega para cuidar de mim. Não bebia mais nem uma gota. Meu pai, aos pouquinhos, foi se reaproximando e a vida foi se refazendo depois da tempestade. Gradativamente, tudo voltou para o seu devido lugar.
Só que desta vez sem mansões nem nada palpável para os olhos alheios.

Reparem que, enquanto as pessoas gostavam de nos invejar, nós vivíamos uma vida muito da porcaria. E depois, quando todo mundo só sabia morrer de pena, era o momento em que estávamos mais felizes, mais sólidos e mais próximos.
De perto, nada é o que parece ser.
Todas as pessoas deste mundo enfrentam medos, dificuldades, confusões.
E por mais que disfarcem, e representem, e maquiem seus problemas, lá, dentro das quatro paredes, a verdade aparece - sequer se esconde.
Mesmo que você não possa ver, porque as janelas dos outros estarão sempre (e propositadamente) fechadas.

De perto, não somos nem felizes nem infelizes.
Nem normais nem anormais.
De perto somos todos iguais.
E se você duvida, aproxime-se das cercas que separam os quintais.

29 dezembro 2008

Carpinteiro do universo

Escrevi quatro páginas falando sobre porque-eu-gosto-e-porque-eu-acho-que-todas-as-pessoas-deste-mundo-deveriam-ouvir Raul Seixas.
Quando terminei, li e considerei aquilo tudo inútil.
Não existe como fazer alguém compreender, com meia dúzia de palavras, o que ouvindo ainda não conseguiu.
Por que: ou você entende, ou você não entende.
Ou você já esteve aqui, ou nunca vai estar.

Em um tempo onde eu não escutava ninguém e tinha a certeza absoluta de que nenhuma pessoa neste mundo seria capaz de me compreender (adolescência é um saco) escutei Raul e tive a impressão de que ele havia me compreendido.
Eu tinha 11 anos.
Vocês não imaginam o que Raul Seixas é capaz de fazer com a cabeça de uma menina de 11 anos.
E sabem por quê eu decidi ouví-lo?
Porque, para mim, ele sempre falou de liberdade.
Mas não a liberdade sexual e tola, que a maioria das pessoas se orgulha em possuir e que apenas serve para acorrentá-las ainda mais.
Falo daquela liberdade que você sabe se tem ou não tem de noite, sozinho, deitado na cama.
A liberdade que te liberta daquilo que fizeram de você.
A liberdade de pensar, de se permitir experimentar, de ter a plena consciência que não há como saber sem tentar.
A liberdade que, ao invés de fazer indagar aos outros, faz indagar a si próprio.
Esta que faz buscar deus dentro de cada homem.
Que transforma o egoísmo em algo bom, no momento em que se é capaz de fazer o bem para encontrar o bem que vive dentro de nós.
A liberdade que faz de você o único capaz acabar com essa palhaçada toda.

Eu gosto do Raul.
E o respeito muito.
Foi por causa de suas idéias, transformadas em músicas (mas que poderiam perfeitamente estar retratadas em um quadro, ou em algum livro ou desenho) que consegui, feliz ou infelizmente, ser quem eu sou hoje.
E por mais que eu não tenha dinheiro, nem estabilidade financeira; e por mais que eu queira ser escritora em um país onde os escritores morrem de fome; e por mais que eu tenha milhares de defeitos; eu sou uma pessoa livre.
Graças aos meus pais, é claro, que nunca me podaram, nunca me desrespeitaram. Mas também graças ao Raul, que não permitiu que eu me aprisionasse dentro de minhas pequenas certezas, e passasse (talvez, quem sabe) a vida inteira vagando pelo mundo dentro de uma bolha intacta e velha.
Sim. Raul me deu a mão e me tirou de dentro de um abismo ao qual eu me precipitava.
Um abismo triste e melancólico, onde todos os dias muitas pessoas despencam, hipnotizadas, adoentadas e infelizes, vítimas das próprias mãos.

Apaguei o texto que escrevi sobre porque-eu-gosto-e-porque-eu-acho-que-todas-as-pessoas-deste-mundo-deveriam-ouvir Raul Seixas simplesmente porque não existe jeito de explicar o que Raul fez com a minha vida.
É preciso ouvi-lo e descobrir, por conta própria, o que ele vai fazer com a sua.

É isto o que desejo para todos nós em 2009.
Ouvir mais Raul Seixas e se permitir abrir aquela porta, no fundo daquele corredor.
Aquela que você finge que não está ali.

Que venha 2009. Mas que venha quente, porque nós estaremos fervendo.

26 dezembro 2008

Tópicos mal escritos de natal.

O Rei
Minha mãe, como quase todas as mães deste Brasil, é fã do Roberto Carlos.
Logo eu, que sempre fui fã da minha mãe, acabei virando fã do rei também.
E todo final de ano, no especial de natal, lá estamos nós duas, vidradas na frente da tevê, tomando cerveja, comendo azeitonas e choramingando enquanto ouvimos “... fecho os olhos pra não ver passar o tempo, sinto falta de você...”.
Pra mim, é sagrado.
Passo o natal sem árvore, sem presente, sem peru, mas sem o Robertão, nem a pau.
É um dos raros clichês natalinos que não abro mão.
O problema é que, apesar da nossa idolatria, Roberto andava meio chato.
Sempre os mesmos convidados, cantando as mesmas músicas, usando as mesmas roupas e homenageando a mesma Maria Rita no final de cada programa.
Mas ontem as coisas mudaram.
Quem viu sabe do que eu estou falando.
Roberto trouxe nomes do rock, da MPB, do samba e até do sertanejo para o palco. Cantou músicas que nunca cantou em especiais de natal, não substituiu “se o bem e o mal existem você pode escolher” por “se o bem e o bem existem você pode escolher”, tomou vinho, sambou com a rainha de bateria da Beija-Flor, trocou o famigerado azul por cores mais fortes e vibrantes, sorriu bastante e, o melhor: não homenageou a falecida.
Até não vejo problema nenhum em homenagear as pessoas que você ama muito e já morreram, mas uma hora precisamos deixar os mortos em paz.
Especulamos muito e concluímos que isso tem cheiro de amor novo.
Tomara.
Nunca é tarde para voltar a ser feliz.

A Barata
Ontem estava morrendo de cansaço.
Minhas pernas doíam, meu fígado pedia trégua, meus pulmões tentavam arduamente manter-se em funcionamento e eu decidi que precisava dormir.
Estava me preparando para o sono dos justos quando, de trás da escrivaninha do meu quarto, saiu uma barata.
Não, uma barata não!
Um monstro gigante, nojento, gordo, asqueroso, cascudo e, como se não bastasse, voador.
E atrás dela veio outra, tão gigante, nojenta, gorda, asquerosa, cascuda e voadora quanto a primeira.
Então, a mulherzinha que vive dentro de mim se manifestou e eu tive um ataque.
Disse que não dormiria no quarto dejeitonenhum, pelo menos enquanto não matassem aqueles dois monstros cascudos.
Cavanhas, como o bom marido que é, me defendeu das nojentinhas voadoras e as estraçalhou com um matador de moscas. Porém eu já havia me dado conta de que, se haviam duas, certamente haveria outras duzentas escondidas pelas frestas e por todos os cantos.
Dormi com o cobertor até o nariz e a luz acesa, me sentindo pateticamente vulnerável a um ser que não deveria pesar mais de um grama.
Prefiro encarar um tiranossauro rex do que uma barata.
E é terrível saber que milhares delas devem estar escondidas, neste exato momento, nas fendas, atrás dos armários, dos quadros, dentro de caixas, em qualquer lugar, e ao menor descuido sairão das trevas para atormentar cidadãos pagadores de impostos como eu.
Agora mesmo, enquanto escrevo este texto, não tiro os olhos das paredes, do chão, de todos os lados.
Não suporto baratas.
Suporto tudo, menos baratas.
E pensar que se a bomba atômica explodir apenas elas restarão.
Ai, ai.

O Gato Orelhudo
A noite do dia 24 teve muita cerveja e poucas pessoas.
Nada melhor.
Enchi a cara, assisti dvds, joguei conversa fora e, às 3 e meia da manhã, estiquei meu corpinho bêbado na cama e adormeci, pensando que nada me faria levantar antes das 11 da manhã.
Acordei às 8 e meia com miados na minha janela.
Levantei, espiei pela fresta e detectei a presença de um mini-gatinho, que fora abandonado impiedosamente no meu quintal.
Chamei meu pai e catamos o bichano que, aliás, é o bichano mais feio, mais magro e mais orelhudo que já vi na minha vida.
Pobrezinho.
Envolvidos pelo espírito natalino e seguindo a tradição de nossa família de acolher animais feios, doentes, aleijados e excluídos em geral, carregamos o animalzinho – que não tem mais que dez centímetros, sendo 7 só de orelhas - para dentro de casa.
Por sorte, encontramos um lar e um novo dono para o pequerrucho, pois aqui em casa ele iria se sentir hostilizado pelo nosso cachorro ancião, nossa gata que pensa que é a rainha da cocada preta e nosso gato com deficiência visual.
Sabe como é: eles são muito carentes e temperamentais.

A Piscininha
Depois de vários dias de um calor escaldante, axilas suadas, mau humor, falta de ar e manifestação de todas as formas de alergias possíveis, resolvi montar minha pobre, porém limpinha, piscininha de 3 mil litros.
Comprei há uns três anos atrás, numa tentativa desesperada de não morrer de calor.
Enquanto a piscininha enchia e nós aguardávamos ansiosos para dar o primeiro "mergulho", o céu fechou, nuvens cinzentas apareceram, um vento gelado soprou do oeste e o tempo desabou.
E esfriou.
E eu até coloquei um casaquinho.
Alegria de pobre, definitivamente, dura pouco.

A Vizinha
Estava eu sentada na varanda da casa dos meus pais, tomando um café preto para tentar acordar, quando ouço a vizinha da frente gritar:
- Oi, cortou o cabelo de novo?
Não, eu não havia cortado o cabelo de novo. Mas achei melhor não explicar:
- Sim, cortei.
- Tu ta sempre mudando, né?
- É que eu enjôo muito rápido das coisas. Principalmente da minha cara.
- Ficou bom assim. Tu é tão magrinha, agora teu rosto ficou mais cheinho.
Hã?
Mais cheinho?
Ignorei.
Ela estava longe, do outro lado da rua, e eu deveria apenas estar inchada de tanto dormir e beber.
Bem, pelo menos foi o que pensei na hora.
De tarde, fui no meu avô e minha avó disse:
- Tu deu uma engordadinha né? Ta com as pernas mais grossas, o rosto mais cheinho...
Hã??
- Isso deve ser gravidez, disse meu vô.
Hã???
Rárárá. Como você é espirituoso, vovô. Estou morrendo de rir.
Voltei para casa azeda, deitei na rede, joguei meus pés para o céu e esqueci essa história.
Cheinha é a...#&%@#!
Humpf!

A Justificativa
Quero súper-agradecer aos queridos que me enviaram e-mails, escrépes, cartões, pombos correios e boas vibrações neste final de ano.
Também amo vocês e assim que parar de sentir sono vou responder a todos.
E a cada um.
Beijo na bunda.

20 dezembro 2008

Castração Química

Marina Maggessi é delegada, deputada, Dura na Queda e vítima de abuso sexual.
Como é possível?
Simples.
Quando foi molestada, ela ainda não era delegada, nem deputada, muito menos dura na queda.
Ela tinha cinco anos, e durante dois precisou agüentar as investidas e a violência de um tio paterno.
O tempo passou, Marina cresceu e virou uma mulher porreta e corajosa que, no dia 27 de novembro deste ano, apresentou um projeto de lei para a castração química de pedófilos e estupradores reincidentes.
Ou seja: o sujeito cometeu o crime, foi para a cadeia, cumpriu a pena, saiu e cometeu o mesmo crime mais uma vez?
Castra.
Não encontrei na internet como, exatamente, funcionaria esta castração, mas deve ser uma injeçãozinha ali, no bilau do sujeito, e pronto! Não endurece mais porra nenhuma - com o perdão do trocadilho.
E tarado sem pau duro é a mesma coisa que abelha sem ferrão: não oferece mais perigo para ninguém.
E digo mais: aposto que esta estirpe de criminosos covardes (desprezada até mesmo pelos próprios bandidos) irá pensar duas vezes antes de sair por aí molestando criancinhas e mulheres.

Infelizmente, o projeto de Marina é ainda um projeto.
Até ser aprovado e virar lei, ela provavelmente enfrentará os milhares de xaropes dos Direitos Humanos e seus asseclas, que dirão que a pena é desumana e cruel e blábláblá, e se apegarão com unhas, dentes e desespero ao inciso III do art. 5º que diz: ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante.
Então será necessário desenhar até que entendam que a castração apenas será aplicada a criminosos re-in-ci-den-tes, isto é: que estão cometendo o crime pela segunda, terceira ou décima nona vez.

A castração química já está em pleno vigor em países como Suécia, Itália, Dinamarca, Alemanha e Estados Unidos (vigente na Califórnia, Montana e Texas, e ainda em discussão na Flórida).
Na Inglaterra, em junho de 2006, foi anunciado um plano para o aumento no número de casos tratados com inibidores sexuais.
Na França, o presidente Sarkozy anunciou sua aprovação à idéia de inserir a castração química como sanção penal nos crimes praticados por pedófilos.

É uma pena que o Brasil adore proteger o bandido.
Não defende o cidadão, defende o criminoso.
Alguns vão dizer: é cruel castrar um sujeito.
É sim, muito cruel, e tem mais é que ser, que é para não se meterem mais a besta com ninguém indefeso.
Porque, penso eu, cruel mesmo é transar com crianças de cinco anos.
Cruel mesmo é ser violentada.
Cruel mesmo é passar anos sofrendo abusos, que vão desde físicos até psicológicos.
Cruel mesmo é ter de conviver, eternamente, com as lembranças de um crime que não terminou quando o filho-da-puta do estuprador gozou.

E se vocês querem saber, eu tô é cagando e andando se é cruel para os estupradores.
Apenas se preocupa com o bandido quem ainda não foi vítima de nenhum deles.
Se, por exemplo, você acha isso tudo bárbaro e todas aquelas baboseiras humanistas idiotas, espere até ter um filho violado.
Vai ver o quanto esta medida é justa, muita justa.
Justíssima.

Para nossa sorte, quem está mexendo os pauzinhos para que este projeto vire lei, é Marina.
A delegada, a deputada dura na queda.
Uma brasileira que não tem os ranços tipicamente brasileiros, como este, de morrer de pena de criminosos.
Disse ela:
“Há quem se insurja contra a idéia, valendo-se do texto constitucional que veda penas cruéis. Entretanto, é antigo entre os acadêmicos do Direito que os direitos fundamentais não têm valor absoluto. Citemos, por exemplo, o clássico caso em que à polícia é dado o direito de matar o seqüestrador que mantém sob sua mira uma vítima. Analogicamente, em se tratando de um direito do preso à incolumidade física há, em contrapartida, a segurança de mulheres e crianças, em geral, vítimas de crimes sexuais. A pedofilia hoje veste terno e gravata; ela está na igreja; está nos pastores, nos pediatras, nos políticos e nos coronéis. A pedofilia está em todas as mentes que olham para uma criança e conseguem ver nela algo a ser explorado sexualmente. Por isso, 18 anos, 30 anos de reclusão é muito pouco para alguém que, ao sair da prisão, vai reincidir.”Tô contigo Marina.
E não abro de jeito nenhum.

Campanha: Desacelera.

Por uma vida com menos pontos de exclamação.
Leia aqui.

Muak.

19 dezembro 2008

Estou, oficialmente, sabotando as festas de final de ano ocidentais judaico-cristãs.

Sim, me rebelei.
Obviamente, isto não significa que ficarei em casa assistindo na tevê as aventuras de Mary Poppins, mas simplesmente me recuso a trocar presentes, pendurar guirlandas, montar pinheirinhos e tomar champagne comendo uvas e fazendo pedidos idiotas.
Francamente.
Esta época do ano é um festival de massacre a criatividade.
Sempre a mesma história, as mesmas propagandas com famílias estupidamente felizes, os mesmos enfeites, as mesmas conversas fajutas, os mesmos posts em blogues falando sobre o assunto (ops) e o maldito, odioso e absolutamente desprezível amigo-secreto.
É a ode ao clichê.

Juro que não estou aqui para protestar contra os porcos-capitalistas, nem para reclamar sobre o que fizeram com uma data que deveria ser, catolicamente falando, a celebração do nascimento de um tal de Jesus.
Reclamo e protesto, e muito, contra esta mesma e famigerada ladainha de fim de ano.
Protesto contra a publicidade sem noção, desesperada para arrancar os trocados amassados do décimo terceiro do trabalhador.
Protesto contra esta robotização massiva que leva as pessoas a fazerem coisas sem sequer se perguntar para que, por que e por quem.
Protesto contra meu querido e detestável povo brasileiro, hipnoticamente faceiro, gastando suas últimas moedinhas em bolinhas para a árvore de natal, convictos de que tudo faz muito sentido.
E dá-lhe panetones, frutas cristalizadas, perus, lembrancinhas, cartões, promoções imperdíveis.
Saco.

Mania de nos apegarmos a besteiras enquanto as coisas importantes passam desapercebidas.
Não adianta enfeitar a casa no natal se, durante o ano inteiro, sua casa é triste e vazia.
Não adianta dar presentes, se você passa o resto do tempo sem dar nada a ninguém.
Não adianta mandar cartões cheios de mensagens sobre paz e fraternidade, se você é incapaz de transformar a teoria em prática.
Não adianta pendurar luzinhas piscantes na varanda, se em volta de você nunca existe nenhuma luz.

Por isso, não vou fazer um post especial de natal e final de ano.
E o que deixo escrito aqui, para vocês, é o que lhes desejo no natal, no final do ano, no carnaval, na páscoa, no dia dos pais, e em todos os outros dias, com ou sem feriados, com ou sem comemorações, com ou sem este bundalelê consumista:
Espero, do fundo do meu coraçãozinho juvenil, que vocês possam ter a sorte e o privilégio de passar a noite do dia 24 – e, principalmente, todas as outras noites do ano - perto de pessoas que vocês honestamente gostem.
E que possam viver seus dias sem ter que representar nenhum papel - porque, depois de saúde, não existe nada mais importante do que isso.
Desejo que arranquem esta porcaria de guirlanda - que mais parece uma coroa de defunto - da porta da frente e tratem de lembrar que, para as noites serem realmente noites felizes, não adianta nada gastar um dinheiro que vocês não têm naquela loja de cacarecos, nem adianta comprar uma roupa nova para a virada do ano, nem adianta pular as sete ondas.
Desejo que todas as pessoas deste mundo possam, de fato, ouvir um sino pequenino vindo de Belém, e que descubram o que, afinal de contas, estão comemorando.
Porque a maioria de nós, nem sabe.
Tin-Tin.

15 dezembro 2008

Pobres-vítimas.

A gente colhe o que planta.
Impressionante como é sempre necessário repetir este bordão, tão óbvio.
Não sei qual parte as pessoas não entendem, ou se realmente não sabem o que estão plantando.
Por exemplo: eu fumo.
Desde os 14 anos. E por mais que pense em um-dia-parar, a verdade é que isto não está, por hora, nos meus planos. Ao menos não de verdade.
No entanto, se daqui um tempo o cigarro me causar alguma moléstia, vou ter que ficar bem caladinha agüentando, pois afinal havia a opção de não fumar – e eu escolhi a outra.
Eu escolhi.
Você escolheu.
Eles escolheram.
E estas escolhas nos levaram por uma determinada direção, que nem sempre foi acertada. Logo, sentar no meio de um caminho errado e ficar ali, se lamuriando pela escolha torta, não é das atitudes mais sensatas e inteligentes, vamos convir.
Porque ou você agüenta no osso do peito, ou então não paga para ver.

O sujeito que decide vender drogas precisa saber, de antemão, que corre consideráveis riscos de ir parar na cadeia.
Aquele que transou sem camisinha deverá ter consciência que, se vier um filho ou arrecadar uma doença nojenta sexualmente transmissível, a responsabilidades e as conseqüências serão somente suas.
A garotinha que quer dar para o namorado da melhor amiga que dê, mas fique sabendo que se a outra descobrir e te chamar de puta e te der um soco na cara, não adianta chorar.
O cidadão que planta uvas terá que ser muito idiota para pensar que irá colher bergamotas.
A teoria é tão simples que assusta.

É bem verdade que as pessoas também adoram tirar o corpo fora. Se posicionam diante da vida e seus problemas e suas colheitas como pobres-vítimas, e ao invés de arcar com as conseqüências de seus erros de peito aberto e cabeça erguida (transformando os sofrimentos em lições, ao invés de traumas) fazem exatamente o contrário.
Isso é andar pra trás – o que é uma ode à estupidez, tendo em vista que até um cachorro é capaz de aprender a não cagar no tapete quando o dono esfrega seu focinho na merda.

Acontece que a comodidade de ser uma pobre-vítima atrai muitos.
É bem mais fácil ficar sentado se convencendo de sua má sorte do que fazer qualquer coisa, do que tomar qualquer atitude.
E dá-lhe lamúrias, e lamentos, e dramas, e chororós.
Todo mundo ali, parado, chorando pelo leite derramado ao invés de tratar de secar o chão.
Não sei vocês, mas eu cansei das pobres-vítimas. Com travessão, itálico e tudo.
Simplesmente não sou mais capaz de me apiedar delas.
Elas são egoístas, melodramáticas, afetadas.
Reparem: quem realmente tem motivos para estar jogado em uma cama se entupindo de tarjas pretas, geralmente não está. Apenas as pobres-vítimas ficam no caminho, cantando sua canção repetitiva e desafinada de infelicidade eterna.
Não podemos cair na conversa delas, e muitíssimo menos nos juntar a elas.
Não podemos nos comportar como o adolescente de 16 anos que se considera homem o suficiente para dirigir e trepar, mas na hora de trabalhar e assumir qualquer responsabilidade, se acha uma criancinha indefesa.
Precisamos nos livrar da mocinha-tonta-de-novela-das-oito que existe em nós e seguir em frente.
Para frente.
E quem não quiser que fique aí.

11 dezembro 2008

The books on the table.

Sempre fui péssima em inglês.
Juntamente com matemática e química, ele nunca me atraiu ou agradou.
Pelo contrário.
Muito pelo contrário.
Até na faculdade, quando cursava o último semestre e estava ocupada com teses e projetos experimentais, quase fiquei no meio do caminho por causa de uma matéria de nome Inglês 2.
O básico do básico.
Todo mundo preocupado com a apresentação da monografia e eu desesperada por causa de um inglês para crianças.
Só consegui o diploma porque me amiguei com a professora e lhe paguei propina através de serviços prestados.
Mas isso já é outra história.
O fato é que o mundo dá voltas e adivinhem o que me aconteceu?
Rárárá.
Exatamente.
Tive um de meus poemas traduzidos justamente para o inglês, e o que se chamava O Baile se transformou em The Ballroom.
The Ballroom.

Que lindo.
Tô pobre mas tô globalizada.
Ié, ié.
Cliquem aqui e leiam.
Ou tentem ler.
Ou apenas olhem o texto como um todo – como eu estou fazendo – e fiquem ali, só curtindo.
O original – em nossa adorável língua pátria – pode ser lido aqui.

Eu não disse, professora Rita?
O importante não é saber.
É ter o e-mail de quem sabe.
Valeu Zan!

10 dezembro 2008

Já disse uma vez:

Apesar de não parecer, sou uma pessoa muito tolerante.
Quero dizer, eu me esforço horrores para ser o mais tolerante que minha persistência for capaz.
Obviamente que tentar nem sempre significa conseguir, e o que relato logo abaixo é, sem dúvidas, uma coisa que me faz descer dos tamancos – que sequer uso.

Pois bem.
Todos aqui sabem que o planeta está ferrado.
Como todo mundo também sabe que os maiores poluidores não estão muito interessados em colaborar.
No entanto, se as pessoas (isto é, eu e você) fizessem a sua microscópica parte, reverteríamos consideravelmente a situação ao nosso favor.
Isso é fato.
Mas, ao invés de fazer o mínimo, o que vemos e fazemos por aí?
Banho de duas horas. Torneira aberta enquanto se lava a louça, a roupa, enquanto se escova os dentes. Luzes acesas o tempo todo, geladeiras velhas, torneiras pingando.
Desperdício.
Desperdício.
Desperdício.
E o ponto – o pivô da manifestação da minha intolerância – é que as pessoas que conheço, que esquecem torneiras abertas e luzes acesas, são pessoas tecnicamente bem esclarecidas, formadas, estudiosas, intelectuais e blábláblá.
Não é um pobre-coitado que diz “dá uma moeda tio”.
É um sujeito que lê um monte livros, faz um monte de cursos, estuda até virar um asno e, às vezes – GLUP! – dá aulas.
Isso, para mim, é o exemplo clássico da burrice.
E - é importante frisar - existe uma diferença imensa entre o burro e o ignorante.
O ignorante é o cara que nunca quis ou teve chance de estudar, e mal e mal sabe assinar o nome.
Mas o burro?
O burro não!
Estudou, se formou, trabalhou, estudou, se informou, estudou, trabalhou, estudou.
E sabem no que deu?
Em nada.
Não serviu para absolutamente nada.
Poderia ter parado na segunda série que daria na mesma.
Isto é, sabem que o mundo está fodido, fazem discursos sobre causas ambientais, acessam o site da Globo, denunciam uma queimada e vão dormir em paz.

Então pessoal, não me obriguem a desenhar:
Tentem não jogar fora tanta água, tanta energia, tantos papéis.
Parem de achar que vocês não têm nada a ver com isso.
Não precisam se afiliar ao Greenpeace e invadir navios pesqueiros clandestinos, basta que desliguem a luz, consertem a geladeira, dêem um jeito naquela maldita torneira pingando.

E também me desculpem o mau jeito.
Mas se intolerância é defeito, demagogia, para mim, deveria ser crime.

09 dezembro 2008

Porque você não adota uma criança?

Texto inédito da Jana aqui.

Aliás, aproveito para relembrar, a quem puder interessar, que continuamos recebendo material para avaliação do site 3:AM Magazine.

3:AM Magazine?
Sim, um site natural do Reino Unido, bem bacana, que está no ar há mais de 7 anos.
Sua versão em português estreou faz pouco mais de um ano, mas já dizendo a que veio.

Que tipos de textos posso enviar?
Qualquer um, desde que seja bom e seja seu.
Vale conto, crônica, prosa, poesia, letra de música, palpite, frase de impacto, resenhas, artigos e três pontinhos.

Existe alguma regra para a formatação dos textos?
Não.
Nada de regras.
Odiamos regras.

Meu texto vai ser traduzido para a língua dos gringos?
Tem chance.

Para qual e-mail eu mando?
Este: 3am.jana@gmail.com

Vou ganhar dinheiro?
Rárárá.
Óbvio que não.

E o que você, Janaína Lauxen, tem a ver com isso?
Juntamente com o querido e colorado Beto Canales, sou editora do site.
Rá.

Espero seus textos na minha caixa de e-mails.
Combinados?

08 dezembro 2008

O Bar.

Se existe um lugar honesto nessa vida, esse lugar é o bar.
Nas ruas, no trabalho, no supermercado, todas as pessoas parecem iguais, andando iguais, pensando iguais, olhando para os lados antes de atravessar a avenida iguais.
Todos nós, iguais a robozinhos comandados por um invisível controle remoto chamado sistema.
Mas no bar, não.
Ali o cidadão tira suas máscaras, mostra sua cara, solta a franga e manda ver.
Eu adoro.
Ontem mesmo eu estava num bar.
Mas um bar bem bodega, desses onde a cerveja é barata, o banheiro é de higiene duvidosa, os copos são de plástico, o dono é velho conhecido e há uma atmosfera gordurenta no ar.
Estes são os melhores.
Bares metidos a besta não são tão honestos quanto bares gordurentos.

Na mesa ao lado da minha, três homens dividiam três cervejas.
Um deles – o mais bebum, sem dúvidas – dizia ao outro com a sinceridade que somente os bêbados possuem:
- Tu é gente fina, irmão.
Ao que o segundo respondia:
- Também te considero, irmão. Tu sabe, eu te considero.
Enquanto o terceiro, discretamente, tirava um cochilinho - a cabeça pendendo no ar e a boca levemente aberta.
Na mesa à minha frente, dois jovenzinhos com cara de universitários tomavam cerveja e comiam Doritos.
Outros ali adiante discutiam política e economia – como, também, somente os bêbados sabem fazer - e uma mulher comprava hambúrguer e uma porção de fritas.
Aliás, a porção, seja de fritas, peixe ou polenta, é fundamental para a honestidade de um bar gordurento.


Minha dica é buscar uma mesa ao ar livre, ou próxima de uma janela.
Só para observar a vida que continua lá fora, com as pessoas andando para cima e para baixo, com cara de pessoas que andam para cima e para baixo sem saber por quê.
Estar dentro de um bar dá uma sensação de pertencimento a qualquer coisa que não seja o resto do mundo - tão desonesto e pouco gordurento.

Recomendo e apóio.
Procure o seu, peça sua porção, abra seu coração e seja feliz.

Constatação.

- Mas e então? O que você acha disso tudo?
- Eu acho que tem muito sexo e muitas drogas para pouco roquenróu.

Minha voz continua a mesma, mas...

Sim, mudei tudo por aqui.
Pintei as paredes, mudei o sofá de lugar, troquei as cortinas, arrumei uma nova função para a estante e, honestamente, não sei o que esta caixa laranja e suspeita faz aí do lado.
Se eu tiver sorte, conseguirei removê-la dali; se não, teremos que conviver com ela pacificamente.
Não sei o que vocês acharam deste template, mas eu simpatizei.
O que não significa nada, absolutamente.

Por isso, ignorem eventuais esquisitices que poderão encontrar por aqui, nos próximos dias.
Ainda estou me adaptando.

Beijo meu.

Post pós-post: acabo de descobrir para que serve aquela caixa laranja ali. Funciona assim: você coloca uma palavra chave, e um sistema ultra-mega-sofisticado busca no meu blogue onde tal palavra aparece.
Genial hã?
Viva Bill.

07 dezembro 2008

Querêncio.

A Taverna Filosófica é uma comunidade do Orkú bacana pra caramba, onde o pessoal pode divagar a vontade, postar textos, participar de concursos e – acreditem – até ganhar uns troquinhos.
E os taverneiros criaram também um blogue, onde postam vários textos produzidos pelo pessoal da comunidade.
E Querêncio, meu filhote mais infanto-juvenil, está lá.
Confiram, sim?

05 dezembro 2008

Fico aqui,

sentada nesse banquinho, pensando o que esta senhora chamada Vida espera de mim.
Porque fica parada ali na porta, me olhando com essa expressão de quem não tem expressão alguma.
Fico aqui pensando o que eu espero de mim, e o que meus outros eus esperam deste eu, que está aqui, sentado nesse banquinho.
Penso em que inseto, afinal, se metamorfoseou Gregor Samsa e no que existe depois daquela porta, no fundo daquele corredor, o que me espera no dia depois do dia de amanhã.
Terei culhão para agüentar, quando vier, e terei culhão para agüentar, caso nunca venha?
As pessoas me enlouquecem, e eu sou a pessoa que mais me enlouquece.
Fico o dia inteiro pensando sobre coisas que não interessam quando o aluguel está para vencer, quando idiotas pervertidos vendem livros e pessoas bacanas passam fome.
Falta inspiração, mas a que existe já é suficiente para me afogar.
E nadando no meio desta poça de inspiração, eu perco o fôlego, me canso.
Afundo.
Bóio que nem merda.

Escrevi dois textos hoje, e ambos ficaram um porre.
Este é um deles.
Nem tudo dá certo quando coisa nenhuma é certa.
Queria morar numa cidade grande, e andar pelas ruas me sentindo um número nas estatísticas, esbarrando em outros números de estatísticas que pouco estão se lixando para mim ou para qualquer outra coisa.
Mas também quero morar numa cidade pequenina e gostosinha, onde o padeiro e o jornaleiro e a dona do botequim me conheçam, me respeitem, me adorem e me considerem genial.
Queria conversar com as pessoas, e conhecê-las, mas quero que elas me esqueçam, e o número do meu telefone, e a rua onde eu moro.
- Onde eu te encontro?
- Você não me encontra. Simples assim.
Queria viver do mesmo jeito que Deus criou a mandioca, e queria poder escrever sobre cú sem parecer uma adolescente idiota que leu Bukowski e se deslumbrou.

Banquinho desconfortável esse aqui.
Senhora indiscreta aquela ali, parada na porta com expressão de quem não tem expressão alguma.
Perguntar demais nunca foi muito inteligente.
O que será que eu penso de mim?

04 dezembro 2008

Vermelho.

Que me desculpe os gremistas.
Que me desculpe quem não tem nada a ver com isso.
Que me desculpe quem odeia futebol, e também quem pensa que ele serve apenas para distrair o povo de coisas mais sérias.
Que me perdoem todos aqueles que não concordarem comigo.
Mas agora são exatamente uma e cinco da manhã, e meu time querido, do coração, salve, salve Sport Clube Internacional, acaba de conseguir uma façanha.
Não!
Mais do que isso: uma TREMENDA façanha.
Depois de um jogo corrido, sofrido, angustiante.
Depois de eternos 120 minutos.
Eu disse CENTO E VINTE MINUTOS!
Isso é uma vida.
Bactérias e insetos nascem e morrem em 120 minutos.
E aquele maldito gol dos hermanos, ÓH Deus! o que foi aquele gol?
O desespero embaralhando o raciocínio, a sensação de derrota silenciando o Beira-Rio, a vantagem indo ralo abaixo, e ainda por cima o Galvão Bueno, que apenas sendo o Galvão Bueno já é capaz de enlouquecer qualquer santo homem.
E nada do gol colorado.
Nada!
Nem unzinho só.
Não infartei porque não sofro do coração.

Logo, o fim do tempo normal de jogo.
Empate.
Pênaltis? Ora, poderia ser pior. Talvez não seja indolor, mas ao menos será rápido, pensei. Ao menos essa agonia exorbitante desaparece daqui.
Que nada!
Descubro, em franco desespero, que o jogo vai para a prorrogação, ou seja: serão MAIS trinta minutos.
TRINTA MINUTOS!
Isso é uma vida.
Bactérias e insetos nascem e morrem em trinta minutos.
Desliguei a tevê, caminhei pela casa, acessei a internéte, conversei algumas amenidades, tudo para tentar não pensar que o pior estava por acontecer.
Morrer na praia, com vantagem e tudo?
Trinta minutos, um gol.
E em casa! Em NOSSA casa!
Não, não.
Não!
E então, quando já fumava meu nonagésimo sétimo cigarro e sentia meu estômago se transformar em oito, os gritos.
Hesitei, num primeiro momento.
Quem mora aqui no Rio Grande do Sul sabe do que estou falando. Quando o Inter tomou o primeiro gol, a comemoração dos gremistas foi digna de me fazer pensar que o gol era nosso.
Naquela hora, não era.
Mas agora foi.
Histeria, tremelique, até me engasguei.
Faltavam seis minutos para o final da prorrogação.
SEIS!
Isso é uma vida.
Bactérias e insetos nascem e morrem em seis minutos.
Um gol dos argentinos e os pênaltis acabariam com meu coraçãozinho sofrido.
Rezei.
Fiz promessa.
Contei carneirinhos.
Tremeliquei mais um pouco e, quando vi, o tal apito final apitou.
Rárárárá.
Gritos, foquetes, gritos, euforia, gritos, foquetes, euforia, gritos.
Não respeitei meu bom companheiro quando ele advertiu:
- Cara, não berra.
Berrei.
Mas berrei mesmo.
Berrei tudo.
Berrei até extirpar a gastrite que, sem dúvidas, desenvolvi durante aqueles duradouros 120 minutos.
E enquanto escrevo este texto, ainda tenho vontade de berrar.
Ouço a linda e avermelhada passeata lá no centro, e cada buzina parece música para os meus ouvidos.
O Brasil, queridos, é vermelho.

Mesmo que vocês torçam para o Grêmio.
Mesmo que não tenham nada a ver com isso e nem por isso se interessem.
Mesmo que odeiem futebol e o considerem puro e nocivo ópio popular.
Mesmo que não concordem comigo.

Hoje o Brasil é vermelho.
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante.
Vermelhão.
Depois da Libertadores, da Recopa Sul-Americana, do Mundial de Clubes, a Sul-Americana.
Já há quem diga:
- Boca quem mesmo?

Até o Chapolin é Colorado.
Saudações.

02 dezembro 2008

Olá meus queridotes.

Venho, por meio deste, dar algumas explicações.
Não que eu considere prudente dar explicações, mas como vocês ajudam a transformar meus leitores imaginários em leitores reais - e eu gosto muito - acho justo lhes dar uma satisfação.
Acabo de fechar os comentários do meu blogue.
Não porque recebi ofensas nem ameaças, muito menos porque não gosto de ler o que vocês deixam escritos para mim – pelo contrário, adoro.
Foi uma decisão bastante difícil, podem acreditar.
Fui obrigada a tomar tal atitude por causa de um problema muito simples, e que acomete 10 em cada 10 brasileiros nos dias atuais: falta de tempo.
Total, completa e absoluta falta de tempo.
Infelizmente, não estou conseguindo dar a atenção que eu gostaria para o pessoal que passa por aqui e deixa o seu palpite.
Assim, ou eu passo o dia inteiro respondendo os comentários, ou passo o dia inteiro me sentindo aflita porque não estou conseguindo responder os comentários.
Ou, pior: as duas coisas.
Isto estava me deixando realmente péssima.
Gosto de responder a todos, com a atenção e o carinho que cada um merece, e não apenas passar nos blogues e deixar um “oi-obrigada-pela-visita-também-gostei-daqui”, sem nem ler o que o sujeito escreveu.
A verdade é que sou uma baita cú-de-ferro em se tratando de blogues.
Logo, como não estava mais dando conta de visitar a todos e ler todos os textos e deixar comentários decentes, resolvi parar para respirar um pouco.
É uma merda, mas a vida é feita de prioridades, e pagar o aluguel está entre as minhas principais.
Vocês entendem.

Evidentemente, nada disso significa que não comentarei mais nos seus blogues.
Continuarei lá, metendo o bedelho e palpitando.
Dia sim, outro também.
Firme e forte.
Também não significa, de jeito nenhum, que me tornarei uma figura inacessível e blasé.
Isso, jamais!
Para tanto, deixarei disponível, abaixo de cada texto meu – incluindo esse – um e-mail para onde poderão enviar confetes, críticas, xingamentos e convites para festas.
Responderei a todos, sempre.

Espero, do fundo do meu coração, que compreendam meu dilema.
Sou, realmente, uma pessoa confusa e lesada e, ou eu faço uma coisa, ou faço outra.
Ao contrário do que dizem sobre as mulheres, não tenho a brilhante capacidade de fazer milhares de coisas ao mesmo tempo, dando a devida atenção a cada uma e obtendo, ao final do dia, um resultado satisfatório.
Ou eu caminho, ou eu nado, ou eu vôo.
As três coisas, nem eu nem os patos conseguimos fazer.

Beijo meu, bem grande
E olha o e-mail aqui: janalauxen@ymail.com

30 novembro 2008

Ô mano!

Sábado, 23h, toca a campainha.
Parado no portão, um rapaz com cerca de 16, talvez 17 anos:
- Ô mano, tem dez pila aí pra emprestar?
Hã? Dez pila? Rárárá.
- Não, não tem.
- Ah, então vai tomar no cú.
- (...)

Domingo, 16h, centro de Passo Fundo.
- Ô doutor, tem uma moedinha aí para ajudar?
- Não.
- Pode ser qualquer valor, cinco, dez centavos, só pra dar uma força.
- Não.
- Ô doutor, nenhuma moedinha, nada, nada?
- Não.
- Então doutor, que Deus lhe ilumine, lhe ajude, que esteja sempre em seu coração. Bom final de semana.
- Pra você também.
- Mas doutor, não tem nem uma moedinha mesmo? Pra comprar comida. Pô, não vai negar comida né?
- (...)


Depois deste texto, talvez me chamem de fascista, simplista, anti-socialista, comedora de fígados de criancinha e outras definições semelhantes, pouco amistosas.
Não faz mal.
Só preciso deixar registrada aqui a minha indignação e o meu imenso saco cheio em relação a este pessoal considerado “de rua” que, justamente por ser de rua, acham que o resto da humanidade tem o dever moral e cívico de pagar-lhes comida, bebida e o que mais considerarem conveniente.
Nenhum dos dois pilantras que me abordaram eram doentes ou inválidos, muito pelo contrário: eram jovens saudáveis, em perfeitas condições de trabalho.
Então me respondam: porque eu, logo eu, que mal ganho uns trocados para pagar o aluguel, tenho a obrigação de sustentar vagabundo?
Não entendo.
Se eu posso trabalhar, e meu marido também pode, e meu irmão, meu pai e todas as pessoas que caminham sobre esta terra, porque estes merdas pidunchos não podem?
- Ora, porque você teve uma família estruturada, pôde estudar, teve mais chances na vida.
Ah, quer saber?
Cansei dessa ladainha.
Estamos chegando a um ponto, neste país de meudeus, onde estudar, não passar fome e vir de uma família onde não existem alcoólatras-tarados virou um problema. Ou se é um pobre miserável sem expectativa de futuro, ou se é um egoísta, preconceituoso, indiferente as mazelas sociais.
É impressionante, mas você sofre discriminação porque resolveu completar o segundo grau ao invés de abandonar tudo na quarta série.

O cara morava na favela e virou bandido?
Não é atenuante.
Dezenas nascem em favelas, e passam por mil e uma dificuldades e, mesmo assim, não se tornam bandidos. Do mesmo jeito que muitos, nascidos em berço de ouro e amamentados a leite de cabrita, são os criminosos mais salafrários e filhos-da-puta que circulam – livres – por aí.
Se o sujeito se esforçou, e estudou, e batalhou por um emprego decente, ele tem, automaticamente, a obrigação de amparar aqueles que decidiram trocar os livros e a labuta pela cachacinha e o vira-lata?
Acho que não.

A sociedade não cria os bandidos.
Eles se criam sozinhos, geralmente alimentados por uma imensa preguiça e falta de vontade para arregaçar as mangas e pôr a mão na massa.
Porque se a vida tá difícil para você, mano, pode acreditar que está igualmente difícil para mim.
Se a nossa casa não é de papelão, é porque a gente trabalhou e estudou muito para ter um lugarzinho aonde cair morto.
Se nós temos comida na mesa ao meio-dia, é porque de manhã estávamos trabalhando, e não enchendo a cara.
Se hoje nós temos um pouco mais que um guaipeca sarnento e uma calça rasgada, é porque decidimos dar um jeito nessa vida - que não é justa para ninguém - ao invés de ficarmos sentados numa esquina, choramingando as pitangas e sentindo-nos injustiçados perante as mazelas de uma sociedade tirana e cruel.

Este é um dos principais problemas do Brasil: a desculpa esfarrapada.
Todo mundo tem seus motivos e razões para justificar suas pilantragens.
Por isso eu afirmo, sem medo dos socialistas lunáticos que, por ventura, poderão vir a me atacar: se este país é paternalista, eu não sou.
E não vou tirar da minha boca para colocar na boca de nenhum folgado.
Não vou dar uma moedinha só porque o cidadão não toma banho há dez dias e está fedendo.
Nem vou ter pena, porque estes, definitivamente, não são os dignos de piedade.
Antes, terei compaixão dos trabalhadores, honestos, que saem cedo de casa e se fodem trabalhando; gente que tira seu sustento e seu dinheirinho para um sanduíche e algumas biritas do seu trabalho, e não dos bolsos de outros trabalhadores, igualmente fodidos e mal pagos.
Antes de ter pena de moleque de rua, vou ter pena daqueles que ralam o dia inteiro e ainda estudam de noite, que é para ver se arranjam um lugarzinho maneiro em baixo desse sol.
Antes de ter pena dos teoricamente excluído e marginalizado, vou é ter pena de mim, que não estou pedindo, nem matando, nem roubando, nem me prostituindo.
Tô é trabalhando, acordando cedo, agüentando chefe, salários mínimos, impostos e o escaubau.
E se eu consigo, mano, pode crer: você também há de conseguir.
E por hoje é só.
(...)


Leia aqui o texto que o Rafael de Araújo escreveu após ler este post.

26 novembro 2008

Elis, eu também quero uma casa no campo.

Mas a casa no campo mais distante de todas as casas e de todos os campos que existirem nesse mundo.
Uma casa onde ninguém possa me encontrar, e onde eu não possa encontrar mais ninguém.
Onde não tenha telefone, tevê, muito menos MSN.
Onde não tenha gente.

Estou cansada daqui.
Cansada de verdade.
Cansada à exaustão.
Cansada de me sentir cansada.
Meu coração dói.
Dor doída de coração que está machucado, tal e qual um dedo que a gente corta bem na dobrinha, e parece que nunca mais vai sarar.

Sou espírita, e o espiritismo de Allan Kardec nos diz que ninguém paga o que não deve.
Que não há inocentes nem vítimas.
Que, se você está passando por determinada situação, é porque precisa, ou merece.
Eu sei disso tudo, juro que sei.
E não só sei, como também acredito.
Mas tem horas que eu dobro o dedo e o corte volta a abrir.
E então eu me esqueço de Kardec, do Espiritismo, e só consigo me concentrar na minha dor.

Uma casa no campo não iria salvar o mundo dele mesmo.
Mas eu estaria longe daqui, e quem sabe pudesse me salvar.
Longe dessa gente doente, sem coração, maluca, má.
Gente chata, que afoga, empesta, mutila.
Gente que não é gente, nem bicho, nem coisa alguma.

Flávia foi sugada por um ralo de piscina e ficou em coma.
Ela tinha dez anos, e faz dez anos que está em uma cama, viva porém morta.
Os responsáveis (uma empresa cretina administrada por cretinos fumadores de charutos chamada Jacuzzi do Brasil – lembrem-se deste nome e sabotem) não foram punidos.
Não aconteceu nada.
A justiça não anda, e os amigos do rei continuam a sair impunes, sempre por cima da nossa carne seca.
Enquanto isso, muitas e muitas Flávias precisam conviver com a dor da impunidade, da injustiça, do absurdo.
E ninguém faz nada, ninguém fala, todo mundo assovia para disfarçar.

Três rapazes foram torturados pela polícia e acabaram condenados a 24 anos por um crime que não cometeram.
A justiça sabotou a verdade, inventou fatos, torturou.
Há provas de sua inocência, mas não há provas de sua culpa.
Mesmo assim, eles foram declarados culpados, mesmo assim foram condenados.
Eu ouvi os gritos da mãe de um deles, na hora da sentença do juiz, e acho que nunca mais vou poder esquecer: eram grunhidos, urros.
Gritos que vão gritar dentro da minha cabeça, talvez para sempre.
E ninguém faz nada, ninguém fala, todo mundo assovia para disfarçar.

A tevê é a maior das criminosas.
Brinca com as pessoas, procura na desgraça alheia pontos para o seu famigerado ibope.
Uma criança foi estuprada? Beleza!
Outra foi torturada pela madrasta? Melhor ainda!
Depois que Lindenberg matou Eloá, milhares de Lindendergs saíram da toca e meteram balas nas cabeças de suas namoradas adolescentes.
Sorte da imprensa marrom; azar o nosso.
E a tevê continua, divulgando para incentivar.
O que seria dos telejornais se as pessoas parassem de cometer crimes hediondos?
E ninguém faz nada, ninguém fala, todo mundo assovia para disfarçar.

Ou troquem a venda da Justiça por um par de óculos ou tratem de também vendar os meus olhos, porque não posso mais ver, não posso mais engolir, não posso mais continuar aqui, sem fazer nada, sem falar nada, assoviando para disfarçar.
E a dor, ah... a dor não passa nunca.
Igual ao corte na dobrinha do dedo.
E quando eu esqueço da dor e me sinto novamente segura em minha vidinha pacata, dobro o dedo e o machucado volta a abrir e a sangrar.
Por isso quero ir embora daqui.
Preciso ir.
Pois, já que não posso fazer nada, já que não tenho influência alguma, nem dinheiro, nem contatos importantes; já que sou somente um latino-americano sem cheiro nem sabor, então eu quero ir.
Junto com aquele moço.
Naquele disco voador.

Elis, eu também quero uma casa no campo.
De pau-a-pique e sapê.
Onde eu possa plantar meus amigos, meus discos, meus livros.
E nada mais.

24 novembro 2008

O preconceito contra homossexuais não me surpreende.

Ao menos não em uma sociedade onde prostitutas, negros, mulheres, velhos e muitos outros também são colocados de lado, observados de soslaio e com desprezo por todo o resto, tão normal.
As pessoas conhecem bem todas as frases-prontas: ‘não devemos nos meter na vida dos outros’; ‘o que se faz entre quatro paredes não é da conta de ninguém’; ‘as diferenças são lindas e merecem ser respeitadas’.
Tudo muito bom.
Na teoria.
Porque na prática, no dia o dia, na hora do vamosver, é bem diferente.
E nem trato aqui dos fanáticos que criam comunidades secretas com leis próprias, e saem pelas ruas promovendo violência e morte, gratuitamente.
Refiro-me a você e eu, ao seu pai, seu melhor amigo, seu chefe, o dono do bar.
Pessoas comuns que costumam se chocar e se revoltar quando assistem pela televisão a manifestações de ódio e intolerância.
- Tá certo que o cara era gay, mas não precisava matar o coitado.Pois em minha opinião – e podem me acusar de radical, nem tô – a distância entre um sujeito capaz de matar um desconhecido pelo simples fato dele ser diferente e outro, que costuma se divertir contando piadinhas de negros e repetindo bordões imbecis como “tinha que ser um preto / tinha que ser uma bicha” não é tão grande como se pode imaginar.

A maioria dos homens que conheço – e incluo aqui meus avôs, pai, sogro, amigos e irmãos - costumam reproduzir citações do tipo 'não tenho nada contra os gays, desde que fiquem longe de mim'.
Quer dizer: o cara pode ser gay, desde que longe de nossas vistas puritanas e de moral duvidosa; esquecidos pra lá do lado de lá.
Desculpem-me, mas não tem o menor cabimento.
Porque aceitar o diferente é aceitar o diferente por inteiro.
Não adianta de nada aceitar impondo desde já mil e uma condições – até porque isso não é aceitar; é somente tentar adaptar ao seu gosto aquilo que não lhe é familiar.

Se o rapaz é gay e gosta de se vestir como mulher, qual é o problema?
Se for ativo, passivo, seja lá por onde o cidadão sinta prazer, o que você tem a ver com isso?
O que não pode faltar - e isso vale para homossexuais, bissexuais, heterossexuais, transexuais e todo o resto que ainda possa vir a existir - é respeito.
Respeito na abordagem, no comportamento, no jeito de cada um levar a sua vida; afinal ninguém precisa ser vulgar ou promíscuo, nem um gay, nem um hetero, nem ninguém.

A sociedade precisa ceder.
Nós precisamos ceder.
Precisamos aprender a nos colocar na condição do outro.
Ninguém tem culpa de amar alguém do mesmo sexo, e nem precisa ter.
Porque do mesmo jeito que você ama, e sente tesão, e desejo, e não tem nenhum controle sobre isso, os outros também sentem e também não conseguem controlar.
Precisamos entender que, quando uma mulher decide se vestir como um homem ou um homem resolve se adornar como uma mulher, eles tem esse direito, do mesmo jeito que você tem o direito de escolher entre uma calça azul e uma bermuda vermelha.
Precisamos todos perceber que, enquanto alguns querem mudar de sexo, outros não querem. Muitos preferem oscilar entre um e outro, outros gostam de se maquiar, outros se vestem discretamente, e isso, definitivamente, não é da sua conta.
Se o sujeito quer usar saia, colocar purpurina na cara ou trocar as saias pelos calções e o cabelo comprido por um boné, é direito de cada um e temos a obrigação de respeitar.
E respeitar não significa apoiar, adorar, simpatizar, muito menos apresentar tendências homossexuais.
Significa apenas aceitar.
Afinal todo mundo pode casar, ter filhos, passear de mãos dadas no parque e namorar com quem bem entender.
Não importa se você gosta de homens ou mulheres, de homens e mulheres, ou se torce pelo flamengo, se odeia berinjela, se é fumante ou não, se acredita que o homem não pisou na lua ou se prefere descafeínado.
O que vale mesmo é como você é, por dentro.
Como pensa, como se comporta, no que acredita.
Opção sexual é só opção.

O preconceito é egoísta e burro.
Além de repulsivo.
Seja por causa de piadinhas e bordões, seja através das notícias sobre crimes de homofobia e intolerância, é fundamental que se entenda que não há nenhuma diferença, além daquelas que nós mesmos criamos.

19 novembro 2008

Vassoura.

Continuo lendo a série de livros do Dr. Inácio Ferreira (1904-1988), escrita em parceria com o médium Carlos Baccelli, e continuo adorando. Um detalhe muito especial (e comum, em quase todos os seus livros) é o jeito pouco ortodoxo como Inácio (que era médico psiquiatra e diretor do Sanatório Espírita de Uberaba) enxerga determinados problemas.
Sempre quando foi indagado sobre as possibilidades e alternativas para a recuperação de pacientes insanos, esquizofrênicos e paranóicos em geral, ele respondeu:
- Vassoura.
Vassoura? perguntavam, curiosos, seus ouvintes, que por certo esperavam uma imensa dissertação acerca da psiquê humana e suas infinitas particularidades.
- Quem se ocupa com algum trabalho não tem tempo para ficar pensando bobagens, remoendo mágoas, afundando-se desnecessariamente em sofrimentos e insanidades. Vassoura não cura, mas fortalece.

E é.
Definitivamente.
Foi a essa conclusão que eu também cheguei, após colocar o dedo na tomada repetidas vezes, sem aprender que a maldita dava choque.
Porque remédios podem aliviar, especialistas podem escutar, mas o que resolve mesmo é parar de ficar a toa pelo mundo, pensando na morte da bezerra, e colocar a mão na massa.

Eu, por exemplo, sofro da doença mais idiota e modernosa que qualquer latino-americano comum pode sofrer, que é a Síndrome do Pânico.
Bem, para falar a verdade, eu acho esse nome meio catastrófico demais perante o que realmente sinto, mas é como a medicina o definiu, enfim: Síndrome do Pânico. Um transtorno psicológico caracterizado pela ocorrência de inesperados ataques de pânico, seguidos por uma expectativa ansiosa ante a possibilidade de ter novos ataques. As crises consistem em períodos de intensa angústia, geralmente com início súbito e acompanhadas por uma sensação de catástrofe iminente. Os sintomas variam entre taquicardia, tontura, boca seca, tremores e náuseas, além de muitos outros.

É mais ou menos isso que me acontece, só que em menor grau.
Passo horas do meu dia imaginando todas as dezenas de centenas de milhares de tragédias que podem acometer a mim ou aos meus, e já vou sofrendo, com inacreditável antecipação, por coisas que, muito provavelmente, nunca irão acontecer.
Se o cachorro late é porque um ladrão entrou no pátio; se a pessoa não liga é porque ocorreu alguma tragédia; se o avião passa no céu por certo vai cair bem em cima da minha casa.
São sandices, que meu consciente reconhece como sandices.
Mas e o inconsciente? Quem é que manda nele?

Eu não mando no meu, e por isso ele faz o que quer comigo.
O fato é que, desde que apresentei os primeiros sintomas, há quase dois anos, já fiz de tudo um pouco: de remédios até mandingas, não teve o que eu não tentei.

Não nego que melhorei.
Mas basta eu bobear que não dá outra: todas aquelas sensações sinistras e angustiantes voltam, com força total. É como se elas estivessem sempre ali, a me espreitar, me observar e, ao menor descuido meu, aproveitassem para cair matando.
É uma luta diária, sim senhor.
E sabem em que momentos esta batalha se torna mais leve, e eu tenho a nítida sensação de que já ganhei?
Quando estou fazendo alguma coisa.
Se estou lendo, lavando roupa, varrendo o chão, escrevendo, pagando contas, indo no supermercado, enfim: quando estou fazendo hoje as coisas que poderia perfeitamente deixar para fazer amanhã.
Somente nessas horas eu posso dizer que me sinto, plenamente, livre deste sentimento tão canalha.
A desocupação, sem dúvidas, produz monstros.

Então é isso o que posso aconselhar para você, que está tristonho, desanimado, preocupado com as contas que não param de chegar e com o dinheiro que não pára de sair.
Você que padece por amor, você que recebeu um grande golpe, que sofreu uma grande perda, que amarga dura decepção.
Você que toma tarjas pretas como se fosse água, e paga fortunas aos psicólogos e aos grandes laboratórios farmacêuticos.
Você aí, sentado no sofá, sem ânimo nem para levantar e fazer um xixi.
Para todos nós: vassoura.
Porque se ela não cura os males da alma, ao menos os coloca em segundo plano.
Afinal, quem é que vai se preocupar com o cachorro latindo e o avião voando se tem aquela louça toda para lavar?

Há!

Sabem o que eu assinei ontem?
Não, não foi um abaixo assinado pela preservação da Amazônia.
Foi um contrato.
Sim, um contrato, iguais aos que as pessoas assinam quando se casam.
Bem, igual, igual, não.
Mas um contrato, com reconhecimento de firma e demais burocracias.
E sabem de que era esse contrato?
Era um contrato de edição.

Rárárá.
Isso mesmo.
Me chamem, a partir de agora, de Janaína Contratada Lauxen.
Os originais do meu livro, Uma Carta por Benjamin, foram aprovados pela Editora Multifoco, lá do Rio de Janeiro, e o livro deve sair no início de 2009.
Genial hã?
E o melhor de tudo é que a Multifoco não é uma editora qualquer; é uma muito da bacana, sim senhor.
Especializada em publicar novos autores, não é como umas e outras que colocam todas as despesas e obrigações nas costas do (literalmente) pobre e iniciante escritor.
E falo isso de gabarito na mão, porque faz quase quatro anos que procuro editoras dos mais variados estilos e tamanhos, e não foi nem uma nem duas que encontrei fazendo propostas de edição absurdas, repassando todos os custos possíveis (e mais um pouco) para o autor.
Isso sem contar aquelas que, além de cobrar caro, apresentam um trabalho porco.
Enfim.
Isso não importa.
O que importa é que a Multifoco não é assim.
Porque através de pequenas tiragens (que variam de 30 a 100 exemplares, a critério da editora) eles conseguem lançar os livros sem repassar nenhum custo de edição e impressão aos autores. O que possibilita formar um catálogo cheio de novos escritores que, além de não arcarem com nenhuma despesa, ainda recebem sobre as vendas dos livros, podendo também adquirir seus exemplares com descontos e muito mais.
Tudo isso com a mesma qualidade das editoras tradicionais.
Ótimo, não?
E eu só falei isso tudo para dizer que você também pode mandar o seu original, e também pode publicar, e também pode fazer um post contando sobre o quanto você está desesperadamente feliz por finalmente poder publicar.
Sim, você mesmo, aí do outro lado do monitor.
Tem muita gente que eu conheci através dos blogues que estão mais do que prontos para lançarem seus livros - aliás, não sei como ainda não lançaram.
A hora é agora.
Então anotem o e-mail contato@editoramultifoco.com.br , organizem seus originais e mandem ver.

Também aproveito este espaço para jogar confetes em cima de uma editora muito bacana, e que foi a primeira a me abrir a porta e deixar um de meus escritos entrar:
É a Andross, editora súper-do-bem, onde tive o privilégio de conhecer pessoas muito legais e, ao seu lado, continuar em busca deste tal de lugar ao sol.
Valeu.

Ah!
E não esqueçam de guardar um troquinho, porque quem não comprar Uma Carta por Benjamin é a mulher do padre.

17 novembro 2008

Suvenir virtual.

Um Cara de 30 me presenteou, gentilmente, com um tal de MEME (não me perguntem, eu também não sei o que significa), que funciona mais ou menos assim:

1. Eu devo escrever uma lista sobre oito coisas que desejo fazer antes de passar desta para melhor.
2. Depois, preciso convidar oito blogueiros para fazer o mesmo.
3. Então, comentar no blogue de quem me ofereceu o Meme.
4. Avisar meus convidados sobre suas convocações.
5. E, por fim, mencionar as regras, coisa que estou fazendo agora.

Particularmente, eu gosto dessas coisas.
Mas devo confessar que bolar uma lista sobre oito coisas que desejo fazer antes de morrer me deprime um pouco.
Aliás, essas coisas sobre coisas a se fazer antes de bater as botas sempre me deixaram aflitas.
Afinal, ninguém TEM QUE fazer nada.
Se virar obrigação ou ordem, eu já broxo.
Então, mais uma vez apelando para a desordem e a anarquia, alterarei sem dó nem piedade este Meme, e descreverei para vocês oito coisas que eu não quero fazer de jeito nenhum antes de morrer.
Acho que fica menos cansativo e óbvio, e talvez até mais engraçadinho.
Bora lá?

1. Ter um filho. Não, obrigada. Crianças me dão medo e me colocam neurótica. Sem contar toda aquela história dos nove meses, barrigão e (urgh!) o parto. Chego a ter palpitações desesperadas. Sou muito mais de um cachorrinho bem treinado. Muito mais.
2. Tentar compreender o filme 2001 Uma Odisséia no Espaço. Aliás, antes de tentar compreender, preciso conseguir assistir até o final. Nada contra o diretor, que gosto pra caramba, mas absolutamente não consigo. Já tentei, já me esforcei, já me culpei, mas não dá. Simplesmente não dá!
3. Praticar algum esporte radical. Nem pagando. Pra que? A vida já é radical o suficiente e, em tempos onde não podemos mais colocar nosso nariz para fora de casa depois das oito horas da noite, dispenso o bungee jump. Dispenso! Próximo.
4. Aprender a dirigir. Isso mesmo: eu não sei, não quero saber, e só não tenho raiva de quem sabe por que preciso de motoristas dispostos a me levar de um lugar para outro, principalmente quando as distâncias são relevantes e o tempo está para chover. Carro, para mim, só serve para poluir o ar, engarrafar as ruas e estressar as pessoas. Agradeço, mas vou de trem.
5. Viajar pelo mundo. Não que eu não me interesse pelo mundo nem por viagens. Até gosto, dos dois. Mas essa coisa de conhecê-lo de cabo a rabo é responsabilidade demais para minhas costas fatigadas e meus bolsos vazios. Prefiro me abster deste compromisso.
6. Comer alguma comida exótica. Nada de grilos fritos, baratas assadas e insetos dos mais variados tamanhos e cores no meu prato. Até porque, quando estou na cozinha, sou capaz de criar uma comida pra lá de exótica apenas fazendo arroz.
7. Ficar milionária. Podem me chamar de nome feio, mas eu não gostaria. Seria bom ter uma grana para pagar as contas e se divertir um pouco, sem neuroses por causa de uma nota de 50 reais. Mas cagar dinheiro, e ter muitas casas grandes, e carros, e iates, e contas no exterior, e bebidas coloridas superfaturadas, não é pra mim. O dinheiro torna a maioria das pessoas péssimas. Não pago pra ver.
8. Me especializar. Nada é mais monótono do que um especialista.

Gostaria somente de deixar bem claro que, se daqui alguns anos vocês me enxergarem na rua com um filho, ou no cinema assistindo Uma Odisséia no Espaço, ou pulando de bungee jump, dirigindo a 120 por hora na rua Augusta, mastigando um grilo, viajando para a Antártida, morando em uma mansão gigante ou ainda especializada em vinhos, não me recriminem!
A gente nunca sabe o dia de amanhã.

Bem, continuando, eu indico, para responder a este Meme, os seguintes blogues:

- Brog da Cami
- Pensandout
- Todos os Ócios & Ofícios
- Arlequim
- Vestígios da Senhorita B.
- Através do Espelho
- A Barata
- Intersemiótica

Aí vocês escolhem se preferem escrever sobre o que gostariam ou o que não gostariam de fazer antes de abotoar o palitó.
Ah sim, já ia me esquecendo!
Se os indicados não quiserem responder ao Meme, não se preocupem.
Nenhuma assombração vai puxar seus pés durante a madrugada se vocês não enviarem isto para oito blogueiros em oito minutos.

#

Outra da boa: lembram da Zan e do 3:AM Magazine?
Pois então.
Ela resolveu me convidar, e ao querido Beto Canales (amigo virtual que conheci nesta delícia chamada Blogspot) para darmos uma mãozinha para ela, que vive fora do país e encontra dificuldades para contatar novos escritores aqui, no Brasil.
Vai ser bem bacana, pois assim a Zan vai poder se dedicar mais as traduções, o que significa que teremos mais textos, em mais línguas, em um menor espaço de tempo.

Logo, se vocês quiserem participar com seus escritos, basta dar uma conferida em algumas sugestões do 3:AM sobre o envio de textos e, concordando, mandar suas produções para esta que vos fala através do e-mail 3am.jana@gmail.com.
Lerei todos com o maior amor e carinho.
Por isso não se enrolem.
O site está cheio de novidades (e eu garanto que não é pouca coisa) e vocês não vão se arrepender.
Depois não digam que eu não avisei.

#

E o Robson, que mantém, além do seu blogue, um outro voltado somente para arte e literatura, chamado Pensandoarte, me convidou a escrever um textículo por lá.
Enviei para ele um, chamado Ditadura: Adote-me e ele já está no ar. Passem lá.
Isso me deixaria feliz.

#

Vou me mudar para a Cidade de Cabeça-prá-Baixo.
Onde ninguém precisa fazer nenhuma coisa que não tenha vontade.

13 novembro 2008

Blogosfera no Poder.

Afobório, em seu blogue sinistro porém do bem, lançou um desafio para todos os blogueiros de plantão: copiar a frase BLOGOSFERA NO PODER e escrever sobre o tema, livremente, sem lenço e sem documento.
Valendo crônica, conto, poesia, música, palpites, uma frase que seja. Qualquer coisa que coloque esse bando de internautas metidos a escrivinhadores a raciocinar sobre a sua função como blogueiro.
Aposto que você nunca havia pensado nisso, néam?
Pois é, nem eu.
No entanto, a verdade é que o tema não só é interessante como extremamente importante.
Por isso convoco a todos que estão lincados em meu blogue (e também aos que não estão, mas são espertinhos e sabem que vale a pena aderir a causa) a copiar a frase Blogosfera no Poder e, em seu blogue, mandar ver sobre o assunto.
Afinal, todos podem fazer.
Mas quem pensa sobre o que faz, faz melhor e faz toda a diferença.

Blogosfera no Poder

Queiram ou não queiram os intelectualóides de plantão, o fato é que os blogues já se transformaram em um meio de comunicação quase tão forte e sólido quanto os jornais, a tevê, as revistas e os próprios livros.
Com a diferença de que, para se ter um blogue, você não precisa de padrinhos, costas-quentes, jabás, diploma, nem precisa estar no lugar certo, na hora certa, falando com a maldita pessoa certa.
Você só precisa querer.
E isso é democracia pura.

Eu, que desde pequenininha já gostava de dar pinta de escritora por aí, encontrei nos blogues a oportunidade de ser lida – que é, basicamente, o que interessa para qualquer aspirante a escritor.
E não estou sozinha.
Não mesmo.
Quantos e quantos talentos não começaram a aparecer, tal e qual andorinhas em início de verão, desde que disponibilizaram para nós, meros internautas, a chance de dar pitacos e meter o bedelho em tudo, em nossas páginas pessoais?
Aqui podemos falar o que queremos, sobre o que queremos e do jeito que queremos, sem nos preocuparmos com anunciantes xaropes e editores sem coração.
Aqui podemos mandar as editoras as favas.
Aqui fazemos chover, aqui mandamos e desmandamos.
É a liberdade, definitivamente, abrindo as asas sobre nós.

Estamos, todos nós e cada um, iniciando uma pequenina (porém barulhenta) revolução, onde escrever não será mais privilégio de meia dúzia; onde não importa quem está na presidência, nem quais são os seus contatos, nem se você tem dinheiro, prestígio ou um rostinho/bunda bonito.
O blogue é para todos, e por isso é tão forte.
E dada a qualidade dos textos dos blogues por onde eu passeio, e considerando as cabeças pensantes que fazem estes blogues - e que estão pouco se lixando para o que os outros vão pensar - eu garanto, com um discreto sorriso sarcástico no rosto:
Cuidem-se todos os reis, amigos de reis e asseclas!
Nós estamos chegando e nós vamos tomar o poder.
Quem viver, verá.

12 novembro 2008

O careta.

O careta é um sujeito previsível.
Chato.
Você sempre sabe, de antemão, o que ele vai falar e fazer, e a hora exata em que ele vai falar e fazer, e o jeito preciso e metódico com o qual ele vai falar e fazer.
O careta nunca surpreende.
Nunca muda.

O careta não gosta que discordem dele.
Fica ofendido.
E mesmo que você prove, por A + B, que está com a razão, o careta permanece irredutível.
Ele é o dono da verdade.
Ele tem certeza em relação a todas as suas certezas.

O careta é um cara que classifica as pessoas baseado no número de tatuagens, no corte e na cor do cabelo, no tamanho das calças e da barba, e em outras coisas que não fazem a menor diferença.
O careta sempre julga, e sempre condena.
O careta despreza quem é diferente dele.
É covarde.

O careta não muda de opinião.
Jamais.
E também não acredita em mudanças;
prefere pensar que tudo vai continuar exatamente como ele: intacto.

O careta acha que não se deve dar um sanduíche para uma criança que tem fome, porque chama isso de assistencialismo.
E ele considera o assistencialismo errado.
O careta é cheio de discursos gordos em teorias e metáforas idiotas, mas é absolutamente incapaz de tirar do papel aquilo que estufa o peito para proclamar.

O careta é exibido.
Vaidoso.
Megalomaníaco.
O careta não sabe amar, porque não aceita as pessoas como elas são.

O careta gosta de julgar, mas detesta quando é julgado.
Adora apontar o dedo, mas não admite que ninguém o aponte o seu.
O careta quer comer a filha do vizinho, mas não aceita que ninguém queira comer a sua.
Ele é quadrado, gosta de rótulos, gosta de dar ordens.
O careta é adepto de todas as convenções sociais.
Ele não enxerga o próprio (e imenso) rabo.

O careta é um sujeito que dá sono.
Que enjoa.
O careta quer sempre aquilo que não tem.
O careta não muda quando chega o verão.

O careta gosta de títulos, e posições, e sobrenomes.
Ele acredita que você precisa babar no saco das pessoas certas.
O careta vive contando dinheiro.
O careta é amigo do rei.

Com sua alma pequena e seus problemas pequenos,
o careta segue agarrado em suas pequenas certezas,
e pelo mundo vai.


Livrai-nos, senhor, da caretice dos homens.
E perdoai-os;
Eles ainda não sabem o que fazem.

10 novembro 2008

Sobre alguns assuntos eu prefiro não comentar.

Assuntos que deixam as pessoas neuróticas, dispostas a declarar guerra umas contra as outras somente porque possuem opiniões diferentes.
Assuntos que transformei em tabu para evitar a fadiga - se é que vocês me entendem.
Censurei, das minhas rodas de conversa, blábláblás em torno de aborto, vida após a morte, Paulo Coelho, futebol, esquerda/direita.
Não falo nem sob tortura.
Também não persisto mais em longas divagações, muito menos me descabelo tentando fazer os outros entenderem o que eu penso:
Arrã, você tem razão virou meu mantra.

Porque as pessoas têm o costume de punir quem não é exatamente igual a elas:
“O que eu espero senhores, é que após um breve período de discussão, todos concordem comigo“, disse Churchill, certa vez.
Eu nunca fui com a cara desse tal de Churchill.

É por causa desta mania xarope de tentar transformar todo mundo em uma extensão de nossa própria personalidade que passamos a vida inteira acreditando nas mesmas coisas, e conversando com as mesmas pessoas sobre os mesmos assuntos, nos quais concordamos completamente e, assim, não saímos do chão, não nos permitimos estar, pelo menos de vez em quando, errados.
Perdemos a capacidade (se é que algum dia a tivemos) de sentar e escutar o que o outro tem a dizer, sem se alterar e querer estrangulá-lo só porque ele prefere chocolate e você morango.
E, vejam bem: não estou falando isso para você do alto da minha capacidade genuína de tolerância e compreensão.
Não mesmo.
Sou o exemplo clássico da arrogância e falta de paciência que, vejam só! eu tanto critico.
Mas... aqui entre nós, vamos admitir: não temos o costume de escutar uma opinião contrária a nossa sem tentar impor a nossa verdade, a qualquer custo.
Não conseguimos apenas ver ou ouvir o que discorda de nós; precisamos tentar a tudo modificar conforme (e exatamente) os nossos moldes.
Já aconteceu com você, já aconteceu comigo.
Acontece todos os dias.

Mas, evidentemente: isso não significa que não somos esforçados.
Bem que tentamos.
Gostamos de apregoar discursos acerca da igualdade, da liberdade e da fraternidade, e levantar uma bandeira em defesa do respeito às diferenças, mas bastou a pimenta arder em nossas vistas e as botas pisarem em nossos calos que já viramos a casaca e, de um instante para o outro, nos transformamos em únicos e incontestáveis donos da verdade.

Precisamos mudar isso.
Intransigência é um defeito fodido.
Foi por causa da intolerância de uns e outros que muitas cabeças já rolaram ao longo da história.
Não importa se em maior ou menor grau, onde há um déspota há também confusão e pancadaria.

Opinião diferente não é, necessariamente, contrária.
Não estamos contra uns e outros.
Apenas estamos.

E numa época em que Obama faz ressurgir, até nos mais céticos, uma gotícula de esperança - um filete de luz no fim do túnel - eu digo sem medo de parecer piegas: eu também tenho um sonho, Martin.
De que um dia todas as pessoas - incluindo eu - possam sentar em uma mesa de bar e falar sobre aborto e Paulo Coelho sem sequer alterar o tom da voz.
Onde o diferente não será mais ameaçador.
Nem para mim, nem para ninguém.
Então poderemos voltar a conversar.

07 novembro 2008

Olhem que agradável!

Mal e mal iniciei minha saga pelo universo pragmático e misterioso do Blogspot,
e já ganhei três selos simpáticos para o meu blogue metidinho.
Recebi dois destes e um deste.
O primeiro eu ganhei da Arlequin e da Raphaela, respectivamente, e o Dardos novamente da Arlequin.
Agora eu deveria indicar, para o Oscar, meus dez blogues favoritos e, para o Dardos, quinze.
O que significa que, num somatório geral, eu precisaria indicar aqui 35 blogues para receber os selos.
Ou seja: é demais.
Acho que nem conheço 35 blogues diferentes.
Por isso, quebrando todos os protocolos e convenções sociais, premiarei com ambos os selos meus doze blogues favoritos.
E tá decidido.

1. Afobório
2. Casa das Mentiras
3. Contos do Lixo
4. El Club Silencio
5. Sabe de uma coisa?
6. Fabricio Romano
7. Mim nem leu
8. Chispa Daqui
9. Cinema e Bobagens
10. Palavrinhas e Palavrões
11. Tiro na Têmpora
12. PensandoArte

Então é isso.
Os Escolhidos que levem seus selos para casa, façam suas escolhas e inventem suas regras.
A partir de agora, cada post é um flash.
Rárárá.

05 novembro 2008

Os amigos do rei.

O rei, sentado em seu trono, está nu.

O rei comprou um painel em branco, acreditando levar para casa a pintura que somente os inteligentes poderiam ver;
ele, por certo, não via nada ali – no entanto, dizia que sim:
- Claro, eu enxergo. Eu sempre enxergarei.

O rei não olha pela janela e, quando olha, não vê.
O rei está só, mas não sabe.
O rei está morto e, ainda assim, vive como um rei.

O rei está gordo de tanto comer,
e inchado de tanto beber;
é este, apenas este, seu real prazer em ser alteza: comer e beber à vontade.
Comer pelos famintos e beber pelos sedentos.
Comer e beber até preencher este vazio que dói ali dentro,
tal e qual um estômago esfomeado.
É a solidão, que ele deixou de saber.
É a morte, que ele deixou de morrer.
Por isso nada - nada - sacia o rei.

O rei, sentado em seu trono,
está nu,
e está gordo,
de tanto ser rei.
Confia nos homens que o cercam
e no povo que conduz
sem saber (como nada sabe) que a confiança de um rei não pode ser depositada em qualquer homem,
e que povos se rebelam quando a fome vira lei.

O rei observa o painel em branco
que comprou por tantos pesos de ouro,
e tenta, tenta,
mas não consegue enxergar nada ali.
O rei olha pela janela de seu castelo,
tentando alcançar seu reino com seus olhos de rei;
e tenta, tenta,
mas não consegue enxergar nada ali.

O rei, distraído em sua realeza, não ouve os burburinhos do motim.
O rei, comendo e bebendo sem parar, não percebe os primeiros sinais da erupção.
O rei olha para o seu reino,
e nada vê.
O rei está cego,
está surdo
e está nu.

Existe quem lute contra o rei,
e eles são muitos.
Muitos que não querem ser amigos do rei.
Muitos que desejam derrubar o rei.
Muitos que já perceberam
o rei morto.

As paredes do castelo ressoam palavras de ordem:
- Cortem a cabeça do rei!
Mas o rei não escuta, embriagando-se de vinho e croissants.
- Cortem a cabeça do rei!
O rei está nu e não enxerga.
- Cortem a cabeça do rei!
O rei está cego, e não pode ouvir.
- Cortem a cabeça do rei!
O rei devora um pernil de ovelha, estrebuchando enquanto mastiga.
Pensa que morrerá sem enxergar a pintura que somente os inteligentes podem ver.

A porta que protege o rei
é derrubada,
ele sequer consegue terminar o seu jantar.
Eles chegaram,
eles finalmente chegaram.

- E agora? Cadê os amigos do rei?
- Eles se foram.
Todos se foram.
Não sobrou ninguém.

Um rei sem reino e sem cabeça
não pode ser amigo dos amigos do rei.