25 julho 2017

Quem é o seu deus?

Todos os religiosos são devotos de algum deus. E independente de como cada um nomeia o seu, creio que, em um ponto, todos concordam: deus é um cara bacana. Seja lá quem for este deus, ele é do bem. Certo? Certo.
Mas se deus é legal; se ele é do lado bom da força; por que raios a maioria de seus supostos seguidores não é? Afinal, se deus é gente boa, ele não pode ser assim, tão agressivo e azedo como vocês o pintam. Se deus é pai de todos, suponho que também seja pai das travestis, das prostitutas, dos criminosos, dos umbandistas, dos ateus, dos miseráveis, dos viciados, dos gays, dos jogadores de rúgbi.
Vejam o caso de Jesus Cristo: quando ele teoricamente viveu entre nós, há mais ou menos dois mil anos, só andou com os excluídos e com os marginalizados. Não me lembro de nenhuma parte de sua história onde ele menciona curar homossexuais, linchar bandidos, ou atirar pedras em crianças com outra fé.
Então, ou deus é um sujeito preconceituoso, mal-humorado e violento, ou seus seguidores não estão entendendo da missa um terço. Fico com a segunda opção.
Porque debocha da lógica um deus que não respeita a diferença. Que não compreende o sofrimento do outro, que desconhece a empatia. Não aceito – porque minha razão não permite – um deus tão cruel, vingativo, intolerante e megalomaníaco. Neste deus, que muitos seguem, eu não acredito.
O deus que eu chamo de meu é um cara legal e pacífico. Não se importa se você é gay, crente, promíscuo, leproso, dançarino, asiático: ele te aceita, e fim. Este deus que é meu não perde tempo com picuinhas e com detalhes irrelevantes, como a sua profissão, a sua religião, a cor da sua pele, o seu desejo sexual ou a sua conta bancária. Ele quer apenas saber se você é um sujeito bacana, como ele é.
O meu deus está interessado nas tuas atitudes; em quem você é no seu dia a dia. Ele espera que você ame os outros – e se não puder amar, que ao menos os respeite. Ele fica de olho no jeito como tratamos o garçom e o porteiro e o empresário rico, e se nos importamos quando enxergamos uma pessoa dormindo na rua, seja ela criança ou não. Ele somente deseja que a gente ajude quem não pode se ajudar, e que tenhamos um pouco de decência e compaixão na forma como vemos o mundo, e o próximo.
O deus que é meu aceita a diversidade – e não só aceita, como a celebra e a admira, já que ele próprio a criou.
No entanto, para muitas pessoas, só uma fé tem valor: a sua.
Estas pessoas frequentam religiosamente templos e cultos, mas já saem da igreja falando mal do vizinho. Estas pessoas rezam o dia inteiro, mas julgam o próximo com uma severidade que não usam para julgar a si mesmas. Estas pessoas apedrejam crianças, atiram homossexuais do décimo andar, e odeiam qualquer crença ou filosofia que vá contra suas certezas miúdas e egocêntricas.
O deus destas pessoas não é o meu deus.
É o seu?


20 julho 2017

Escola Ernesta Nunes, os indivíduos e a multidão

Terça-feira foi um dia MUITO frio aqui em Carazinho, com temperaturas abaixo de zero e geada sobre carros, telhados e gramados. E apesar de estar com os pés e as mãos literalmente congelados, o coração ficou quentinho e confortável a manhã inteira.
É que eu estava na Escola Ernesta Nunes, participando da Ciranda Cultural, uma das muitas atividades que aconteceram em comemoração aos 56 lindos anos desta escola querida.
Desde que voltei a morar em Carazinho, em 2013, e desde que fundamos a Editora Os Dez Melhores, no mesmo ano, a Escola Ernesta Nunes é presença confirmada em tudo o que se refere à cultura e educação. Uma escola que não é nada acomodada, e está sempre fazendo das tripas coração para dar aos seus alunos não apenas uma educação formal e padrão, mas humana e libertadora, para além das paredes da sala de aula.
Foi uma manhã bela de sol e frio, onde pude ver e comprovar mais uma vez o quanto cada um de nós pode fazer a diferença nesse mundão de meu deus.
A força da multidão é indiscutível, mas a força do indivíduo costuma ser menosprezada – o que é um tremendo erro. Esquecemos que, se fazemos a nossa parte com honestidade e boa vontade, o mundo em nossa volta imediatamente começa a mudar. A força da multidão se faz da soma dos indivíduos que a compõe. Sem cada um, não existe o todo.
É o que eu vejo na Escola Ernesta Nunes: indivíduos fazendo a sua parte com dedicação e obstinação.
E eu só posso agradecer pela oportunidade de participar de um pedacinho da história desta escola que faz a sua parte e, por isso, faz a diferença no mundo – inclusive no meu mundo.
Agradecer aos professores, diretores, funcionários, alunos, por me receberem com tanto carinho!
Agradecer ao Sesc Carazinho pela confiança, e ao grande Fernão Duarte, fotógrafo oficial e parceiro de outros carnavais.
E claro: agradecer ao universo, por me dar esta estranha certeza de que estou no melhor lugar em que poderia estar.





Veja mais fotos aqui.

13 julho 2017

Autógrafos do Rui!

Ontem eu estive no Colégio Sinodal Rui Barbosa para buscar meus autógrafos dos pequenos escritores do Rui. Não consegui pegar o autógrafo de nenhum autor na noite de lançamento, por causa da linda e louca confusão que se formou em torno de cada escritor, quando iniciou a sessão de autógrafos.
Mas ontem pude conhecer melhor e conversar com cada um destes pequenos grandes escritores, que continuam me surpreendendo com sua esperteza, sua inteligência, seu carinho, e aquela inocência sábia e astuta que somente as crianças são capazes de ter.
Contei a eles um pouco sobre o processo de edição de seu livro, e eles me cobriram de perguntas, com seus olhinhos brilhantes e desafiadores.
Foi forte, bonito e intenso. Inesquecível de diferentes maneiras.
Obrigada, pequeninos e grandiosos escritores do Rui!
Obrigada por me receberem com tanto amor, e por confiarem em mim, e em nós.
Vou guardar estes autógrafos no lugar mais querido do meu coração. E toda a vez que a desesperança me pegar desprevenida, vou abrir nas primeiras páginas da obra “Pequenos Escritores do Rui”, para me lembrar por que eu sou tão irritantemente otimista e feliz.
Para me lembrar por que eu tenho certeza absoluta de que caminhamos para um futuro mais vibrante e menos triste.


06 julho 2017

Conectar-se com o diferente: você é capaz?

Sabemos que nosso cérebro sempre reage quando entramos em contato com algo que não estamos acostumados. Qualquer situação que nos tire do lugar onde confortavelmente existimos coloca nossa mente a trabalhar em alerta máximo.
Por isso o diferente é assustador: por que o desconhecemos. O diferente nos coloca em uma situação inesperada e desafiadora, e nosso cérebro primata reage atacando. Uma tentativa de nos defender do que não nos é familiar.
Assim, quando vemos um casal homossexual se beijando, nos sentimos constrangidos. Quando cruzamos por um travesti na rua, ele chama nossa atenção de uma forma perturbadora. Quando conhecemos alguém com deficiência, ficamos atordoados e melindrosos.
A não ser, é claro, que você seja ou conviva com casais homossexuais. Ou que seja ou conviva com um travesti. Ou que seja ou conviva com uma pessoa com deficiência.
O nosso cérebro se adapta ao nosso universo (que, convenhamos: é pequeníssimo), e dali parte para definir o que é “normal” e o que é “anormal” para cada um de nós. E então, quando nos deparamos com o desconhecido, com aquilo que nos é estranho, respondemos de modo defensivo, como se o diferente pudesse colocar nossas crenças e certezas, e nossa própria existência, em perigo.
Uma reação instintiva e irracional, típica do homem das cavernas, e da qual precisamos nos libertar o mais rapidamente possível.
Penso que devemos tentar nos conectar com o diferente; tentar encontrar nele pontos em comum – porque estes pontos em comum existem, e geralmente são maiores do que as diferenças.
A próxima vez que encontrarmos pelo caminho alguém que destoe do pequeno universo onde resumimos nossa existência, ao invés de atacar; de nos sentir ameaçados e ofendidos e desconfortáveis; vamos tentar encontrar neste alguém o que nos une. O que nos torna iguais.
Porque enquanto a gente não descobrir um jeito de viver em paz com o que é diferente de nós; enquanto a gente limitar nossa visão ao minúsculo ponto de vista de que dispomos; enquanto nossa percepção não ultrapassar a porta de nosso quarto e o muro de nosso quintal; esqueçam viver em um mundo melhor.
Pois um mundo melhor somente poderá ser melhor se for melhor para todos. E eu disse TODOS. Todos mesmo, sem exceção. 

04 julho 2017

O privilégio de saber que é privilegiado

Você já passou fome? Já dormiu na rua? Já sentiu frio e não encontrou um agasalho para te aquecer? Você já foi humilhado por conta da sua sexualidade? Já se sentiu constrangido por causa de sua cor? Já perdeu um emprego em razão de suas características físicas? Já teve que fugir de seu país em decorrência da guerra ou de desastres naturais? Você já teve vergonha ou receio de falar sobre suas crenças religiosas? Já sentiu medo de abraçar seu namorado(a) na rua?
Se você respondeu “não” para estas perguntas, sorria leitor! Você, assim como eu, é um baita de um privilegiado! Em um mundo onde tantos enfrentam tantas dificuldades, das mais variadas ordens, responder “não” para as perguntas acima faz de ti alguém extremamente afortunado!
Contudo, conheço dezenas de pessoas que responderiam “não” para todas estas perguntas, e mesmo assim são incapazes de reconhecer seus muitos privilégios. E o pior: além de não os reconhecer, ainda acreditam que os possuem apenas por mérito próprio. Seria engraçado se não fosse triste.
Eu sou uma grande privilegiada. Respondo “não” para todas as perguntas acima. Também estudei em escola e faculdade particular, tenho uma família amorosa e estável; nunca sofri privações, humilhações, retaliações, violações. Tenho uma casa para morar e cobertores para me aquecer. Tenho acesso à informação, educação, lazer, cultura, saúde, saneamento básico. Tenho chuveiro quente, comida boa e farta na mesa; vivo com dignidade e em paz. Tenho todas as minhas necessidades supridas e meus direitos básicos respeitados – eu posso abraçar meu namorado na rua e falar das minhas crenças religiosas sem medo de levar uma pedrada. E ainda usufruo de luxos – como escolher o que vou comer e o que vou vestir.
E é por isso que eu sei que, se eu conquistei tudo o que conquistei até hoje, não foi apenas por mérito, esforço e dedicação: foi por que eu tive a sorte e o privilégio de nascer e crescer em um ambiente fértil e acolhedor, repleto de recursos, conforto e oportunidades, no qual tudo colaborou para o meu desenvolvimento.
Mas o maior privilégio do qual eu desfruto, sem dúvida nenhuma, é a consciência plena e clara dos privilégios dos quais eu desfruto.
Porque o privilégio de saber que é privilegiado infelizmente ainda é privilégio de poucos. 

29 junho 2017

Sobre ser escritor

Um problema de ser escritor: todas as bobagens em que você já acreditou; todas as ideias absurdas que você já julgou corretas; todas as opiniões preconceituosas e limitadas que você já teve, ficam registradas para sempre.
Imagina se você tivesse escrito e publicado as besteiras que pensava há dez anos?
Bem, eu escrevi e publiquei, hahaha.
Este blog, que mantenho desde 2008, está repleto de textos bestas. Textos que agora eu leio e fico pensando “mas que merda é essa, Janaína?”.
Estou inclusive cogitando criar o Selo da Vergonha Interna, para incluir nestas publicações, por que, sabe: É CONSTRANGEDOR. 

27 junho 2017

É mais fácil ser triste

Existe uma música, de uma banda gaúcha chamada TNT, que diz: “O céu não me assusta; o inferno, sim”. Parece uma declaração óbvia, e durante muito tempo eu não entendi exatamente o que esta frase queria dizer. No entanto, os anos vão passando, a gente vai mudando, saindo do lugar, e descobre que, na vida, nada é tão óbvio como pode parecer.
E a verdade é que, por mais que soe incoerente, costumamos viver mais confortáveis no inferno do que no céu. Temos mais facilidade em lidar com a tristeza do que com a alegria. Na minha visão, isso acontece porque, quem é triste, não possui qualquer responsabilidade com a felicidade, e muito menos com os outros. Afinal, ser feliz não é um estado humano natural; a felicidade exige compromisso, dedicação, trabalho. E de compromisso, dedicação e trabalho a maioria de nós só quer distância.
Se tristes somos, não precisamos fazer muito esforço. Podemos ficar sentados em nossa vida triste e ainda despertar compaixão e ternura. Pessoas tristes costumam ser tratadas com maior benevolência, porque, afinal, coitadas! São tristes.
Acontece que não há um ser humano neste planeta que chamamos de Terra que tenha a felicidade na genética. Nenhum de nós é naturalmente feliz. As pessoas que conhecemos, e que costumam ser alegres e otimistas, o são porque se empenham para ser. Geralmente são pessoas desacomodadas e desassossegadas, que simplesmente não aceitam viver tristes. Pessoas que abandonam casamentos infelizes; que deixam empregos desgastantes; que se afastam daqueles que lhes fazem mal. Pessoas que também acordam de manhã desmotivadas e chateadas, mas procuram no dia algo que lhes acalente, alegre e conforte.
E para isso é preciso ter coragem.
Sim, é preciso coragem para ser feliz. E coragem pressupõe ânimo e destemor. Pressupõe esforço para sair da zona de (des)conforto.
Evidentemente que não me refiro aqui a casos de depressão – que é uma doença, e como doença deve ser tratada. Falo de pessoas que encontraram na tristeza uma maneira cômoda de seguir sendo parte do problema, e nunca da solução. Quem precisa se esforçar para conviver com elas são os outros; elas somente sofrem, e são tristes. Quem lhes rodeia que se vire para se adaptar à sua infelicidade.
Então, eu desejo sinceramente que não lhe falte coragem para finalmente ser feliz. Porque o céu, meus amigos, não é assustador. O inferno, sim.

23 junho 2017

A Menina do Vídeo Pornô

Toda vez que um vídeo pornográfico caseiro cai na internet, o que se vê, se ouve e se lê são acusações e xingamentos direcionados exclusivamente para a menina que participa da gravação. Puta. Burra. Vadia. Bem feito pra ela. A garota é escorraçada, crucificada, queimada na fogueira, a ponto de ter de abandonar trabalho, escola, cidade, uma vida toda. Mas para o rapaz, que geralmente foi quem gravou e espalhou o vídeo, silêncio. É como se ele não existisse. Justamente ele, o responsável por expor publicamente, e de forma criminosa e traiçoeira, o vídeo ou as fotos de momentos que deveriam ser rigorosamente íntimos.
A menina que se deixa filmar ou fotografar pode, no máximo, ser acusada de ingênua. Pois acreditou que aquela ocasião seria mantida em sigilo; que seria respeitada pelo companheiro, seja ele seu namorado ou não. Já ele, cometeu um ato criminoso perante a lei, e imoral perante as regras mais básicas de civilidade e respeito ao próximo. Também se mostrou um perfeito idiota; um infeliz que precisa afirmar sua própria masculinidade diante dos outros, e que seria digno de pena, caso não fosse, antes, digno de punição.
Ela é a vítima, e fim. Ela foi enganada; ela foi exposta publicamente. Ela será conhecida, por muito tempo, como ‘a menina do vídeo pornô’. E ela não é ‘a menina do vídeo pornô’. Ela é, antes de tudo, uma pessoa. Muitas são menores de idade, e nem completaram quinze anos ainda. Ela poderia ser sua irmã, sua filha, sua mãe, sua melhor amiga. Ela poderia ser você.
A maneira como a sociedade trata a mulher, vítima de casos como estes, só comprova o quanto somos machistas, preconceituosos, atrasados e conservadores. Repetimos mecanicamente o lugar-comum: ‘ele é homem, está fazendo o seu papel’. ‘Ela deveria se dar ao respeito’. ‘Comedor’. ‘Puta’. E assim vamos fortalecendo a engrenagem que mantém este tipo de crime tolerável.
Toda vez que ofendemos e denegrimos a menina; toda vez que passamos adiante estes vídeos e estas fotos, estamos sendo coniventes. Estamos deixando de punir o culpado para punir a vítima.
Não concorda comigo? Ok. E é por isso que eu espero que crimes assim parem de acontecer imediatamente. Porque quando chegar a sua vez, ou a vez de sua filha, sua irmã, sua mãe, sua melhor amiga, você vai descobrir da pior maneira que ‘aquela menina do vídeo pornô’ é muito mais do que aquela menina do vídeo pornô.

16 junho 2017

Amanhã o refugiado pode ser você

Imagine você: o Brasil entra em guerra. De uma hora para outra, explosões e rajadas de tiros se tornam rotina em sua rua, em sua cidade, em seu estado, em seu país. Cidades inteiras são devastadas, mulheres são estupradas, crianças são assassinadas. Milhares morrem. Não demora, e começa a faltar água, comida, energia elétrica. A vida aqui se torna insustentável.
O que você faria?
Provavelmente o mesmo que eu, e o mesmo que estes milhões de refugiados sírios, senegaleses, haitianos estão fazendo: você iria fugir. Pegaria uma mala, algumas roupas, o que sobrou de sua família, e daria o fora. Caminhando, correndo, de barco, de carro, em cima de uma mula. Pouco importa. O que interessa é sair daqui.
Agora imagine que, neste contexto, nós, brasileiros, chegamos a outro país, cuja guerra não é realidade. Estamos humilhados, machucados, sujos, exaustos, famintos. Nossas crianças e nossos idosos, idem. E ao invés de sermos acolhidos, como os seres humanos que somos, fôssemos maltratados, xingados, intimidados. Proibidos de entrar.
Desculpem, mas isso não cabe na minha cabeça. Não consigo entender, e muito menos aceitar, que estas pessoas sejam tratadas como escória, como se fossem uma praga a ser exterminada – e não como seres humanos fugindo da guerra, da morte, da fome. “Mas isto causará um forte impacto econômico nos países que receberem estes refugiados”, dirão os teóricos. E sabe o que eu respondo aos teóricos? FODA-SE o impacto econômico. Estamos falando de mais de 60 milhões de pessoas expulsas de suas casas em todo o mundo, e que não virarão fumaça e se dissiparão no ar só por que a economia precisa continuar crescendo. São pessoas que precisam de abrigo, de amparo, de um pouco de segurança, de um prato de sopa e um copo de água.
Se a solução não é acolher, qual é a solução? Incinerá-las numa fogueira, para que suas presenças não atrapalhem nossa vida confortável e feliz?
No entanto, devo dizer: não fico surpresa com o tratamento que dispensamos aos refugiados. Nós, em nossas casas seguras e quentinhas, deitados no sofá assistindo Netflix de barriga cheia, gostamos de apontar o dedo aos miseráveis, aos necessitados, aos famintos, aos viciados, aos excluídos, e julgá-los severamente.
Agimos como trogloditas, ao mesmo tempo em que vamos à igreja, lemos a bíblia, e postamos frases fofas no Facebook.
Que esta crise global dos refugiados sirva para que nos reavaliemos enquanto sociedade dita cristã. Enquanto indivíduo dito cristão. E, se não cristão, ao menos civilizado. Que sirva para nos fazer entender que já passou da hora de aprendermos a nos colocar no lugar do outro, e vê-lo com olhos mais generosos e amigos. Já passou da hora de olharmos as outras pessoas como pessoas, e perceber que o bem-estar delas é tão importante quanto o nosso bem-estar. Chega de dois pesos e duas medidas.
Até por que, o jogo vira, meus amigos.
Hoje são os sírios, os senegaleses, os haitianos; amanhã poderá ser os americanos, os japoneses, os europeus. Amanhã poderá ser nós, brasileiros. E eu acho que, em uma situação assim, você não iria querer ser recebido com hostilidade por quem, em condição melhor, poderia realmente auxiliar.
Ajudar é sempre melhor do que ser ajudado, e neste momento nós podemos ajudar. Que assim seja, então.

14 junho 2017

Renan.


Esta foto foi tirada em 2007/2008, e este cara que está comigo se chama Renan Soso.
Eu o conheci em 2002, quando entrei para a faculdade, e desde então ele se tornou alguém fundamental na minha vida. Simplesmente não consigo imaginar quem eu seria sem ele. Estudamos juntos por cinco anos, trabalhamos juntos por um ano, fomos vizinhos por dois anos. Ele esteve presente na minha vida de diferentes formas, e estava lá nos momentos mais coloridos, e também nos mais pálidos e sem cor.
Até o dia em que ele foi embora para Porto Alegre.
Contudo, sua presença segue viva, firme e forte na minha vida. Afinal, ele faz parte da pessoa que eu me tornei. Ele está nas minhas conquistas, no meu trabalho, na minha literatura. Ele está nas decisões que eu tomo, nos caminhos que eu percorro. Ele está na minha saudade, no meu coração, nos meus pensamentos, na minha memória. Ele está em mim.
E hoje o Renan faz aniversário. Por isso escrevo este texto, para dizer para ele o que ele já está careca de saber: eu o amo de tantas maneiras, que fica difícil explicar em palavras pagãs.
O Renan mudou para Porto Alegre, depois para Caxias do Sul, casou, tem uma filha linda chamada Cecília. Não somos mais vizinhos, não trabalhamos e nem estudamos mais juntos.
Mas quando a gente se encontra, é como nesta foto.
É como em 2002, em 2007, é como sempre foi. Apesar da distância; apesar da gente conversar muito menos do que eu gostaria e precisaria; apesar da saudade imensa e dolorida; nada, nada, NADA mudou.
Quando a gente se encontra, voltamos para esta foto, para este apartamento, para esta época querida em que tudo era tão simples, miúdo e belo.
O orgulho que sinto de ti, Renanzito, é do tamanho do ser humano que você é. Você é gigante, e eu só posso agradecer ao universo por ter a honra de contar com a tua presença na minha vida, todos os dias, de todas as formas.
Te amo, irmão.
Feliz aniversário!